A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e a Confederação da Indústria Indiana (CII, na sigla em inglês) assinaram nesta quinta-feira (27) um memorando de entendimento para aproximar os setores produtivos dos dois países, segundo informou o G1. A assinatura ocorre em um momento de reordenação do comércio global, no qual as sobretaxas impostas pelo governo de Donald Trump empurram países exportadores a buscar mercados alternativos. O gesto integra a estratégia do Palácio do Planalto de ampliar as rotas de exportação e reduzir a dependência de um único destino.
Do lado indiano, o principal interesse é a ampliação do acordo de preferências tarifárias entre o Mercosul, bloco do qual o Brasil é o maior sócio, e a Índia, hoje restrito a 450 linhas de produtos. Do lado brasileiro, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, citou setores como indústria farmacêutica, bioenergia, biocombustíveis, fertilizantes e dispositivos médicos. Segundo ele, o comércio bilateral cresceu 82% nos últimos anos. O governo brasileiro também quer parcerias para explorar minerais críticos, insumos estratégicos para a transição energética, desde que os projetos envolvam desenvolvimento de tecnologia nacional. "O Brasil quer ter parceria para a exploração de minerais críticos com todos os países, nunca em detrimento de algum ou para favorecer outro", disse Rosa.
Para o Brasil, o memorando funciona como um seguro contra o agravamento da disputa comercial com Washington. Neste ano, os Estados Unidos aplicaram duas tarifas adicionais sobre produtos brasileiros: uma de 25%, após investigação que apontou práticas que "oneram ou restringem" o comércio, e outra de 12,5%, ligada a um inquérito sobre fiscalização de trabalho forçado na cadeia produtiva. Com isso, parte das exportações passou a enfrentar alíquota total de 37,5%. Itens de peso, como petróleo, café e carne bovina, ficaram de fora da cobrança adicional, mas setores como calçados, máquinas, madeira e açúcar seguem sujeitos à tarifa máxima.
Retomada do diálogo com Washington
Paralelamente à aproximação com Nova Déli, o governo prepara a retomada formal das negociações com os Estados Unidos. Rosa se reunirá virtualmente na segunda-feira (31), às 14h30, com o representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), Jamieson Greer, com participação do chanceler Mauro Vieira. O encontro foi viabilizado por um telefonema de cerca de 1h20 entre Lula e Trump na semana passada, que, segundo o ministro, destravou a mesa de negociação sem concessões prévias unilaterais. Na pauta estarão listas de exceções tarifárias e a Lei de Reciprocidade, instrumento cujo processo de aplicação o Brasil já iniciou e que pode resultar em tarifas sobre produtos norte-americanos. O plano brasileiro é dividir a discussão por setores, começando por bens de capital, seguidos do automotivo e do químico.
"Negociador pessimista perde. Então eu sou otimista. Agora, é óbvio que vai ser um diálogo difícil. Nós não vamos propor nada que não favoreça o interesse brasileiro. Jamais proporíamos algo que pudesse causar dano à economia nacional", afirmou o ministro.
Um dos pontos sensíveis da negociação é o etanol. O Brasil cobra tarifa de 18% sobre o etanol de milho importado dos Estados Unidos e, segundo integrantes do governo que participam das conversas, estaria disposto a reduzir a alíquota se os norte-americanos ampliarem o acesso do açúcar brasileiro ao seu mercado. Hoje, os Estados Unidos operam com cotas de importação: o Brasil, maior produtor mundial da commodity, pode exportar 155 mil toneladas por ano com tarifa reduzida, volume que o governo considera pequeno. O que exceder a cota pode ser taxado em até 100%.
Apesar do otimismo público, negociadores brasileiros ouvidos pelo G1 admitem que dificilmente haverá acordo antes das eleições de outubro. Enquanto as conversas avançam, o governo mantém medidas emergenciais de apoio às empresas afetadas, como o programa Brasil Soberano. As informações sobre o memorando com a Índia e sobre a agenda negociadora têm como base declarações do ministro reportadas pelo G1; outros veículos ainda não haviam repercutido o acordo de forma independente até o fechamento desta reportagem.