A 81ª sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) abre em 22 de setembro, em Nova York, reunindo governantes e autoridades dos 193 Estados membros em seis dias de trabalhos. Por tradição que se repete desde os anos 1950, o Brasil abre a rodada de discursos, seguido pelos Estados Unidos, país anfitrião. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores) já definiu como vai usar esse lugar: entregando ao presidente norte-americano, Donald Trump, um recado sobre eleições.
A declaração foi feita nesta sexta-feira (11), em um ato de campanha em Porto Alegre, segundo o G1. Ao falar sobre a ordem dos discursos ("Na ONU eu sou primeiro a falar, depois que eu falo fala o Trump"), o presidente antecipou o que pretende dizer ao colega americano. Dona Lindu, mãe de Lula, dá nome a uma das expressões mais conhecidas do petista, usada quando ele quer dizer que não aceita provocações.
"Eu não me meto nas eleições americanas porque é uma coisa que interessa ao povo americano, você foi eleito e eu respeito o resultado das eleições. Por favor, não mexa com filho da dona Lindu porque eu gosto de todo mundo, de respeitar e gosto de ser respeitado".
Soberania em pauta em ano eleitoral
O recado chega em plena campanha para as eleições gerais de outubro, nas quais Lula disputa a reeleição. A mais recente pesquisa Datafolha, divulgada na sexta-feira, mostra o presidente com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 35% de Flávio Bolsonaro, e empate técnico no segundo turno. O tema da interferência estrangeira entrou na disputa depois que Trump perguntou a Lula, em um telefonema recente de 1h20, sobre as eleições brasileiras. Lula afirma que respondeu que o Brasil não aceita ingerência de ninguém no pleito.
O contexto explica o tom. Ao longo do último ano, segundo o G1, o governo Trump impôs novas tarifas a produtos brasileiros e fez declarações contra a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Brasília responde em duas frentes: defende publicamente a soberania nacional e mantém aberto o canal com Washington, que inclui um encontro de 45 minutos entre os dois presidentes na Malásia, cerca de um mês após a última Assembleia Geral, e a ligação mais recente, feita a pedido de Lula. Em 5 de setembro, o presidente já havia confirmado que encontraria Trump em Nova York e brincou que pediria ao americano que fizesse um Pix "e ver o quanto é bom", como noticiou a Jovem Pan.
Da 'química' à crítica ao Judiciário
Foi na Assembleia Geral do ano passado que a relação entre os dois ganhou novo contorno. Trump disse que teve "uma química excelente" com Lula, "que pareceu um cara muito agradável", e contou que os dois se abraçaram nos bastidores e combinaram se encontrar. No mesmo discurso, porém, afirmou haver "censura, repressão, corrupção judicial e perseguição a críticos políticos" no Brasil, uma crítica indireta ao processo e ao Judiciário que condenou Bolsonaro.
O discurso de 22 de setembro terá plateia dupla: os diplomatas dos 193 países membros e o eleitorado brasileiro nas semanas finais da campanha. Como o próprio Lula previu, Trump estará sentado atrás dele no plenário durante a fala do brasileiro, antes de assumir a tribuna em seguida.