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Crise diplomática trava cooperação EUA-Brasil contra o crime organizado

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BAPor Beatriz Antunes•14 de setembro de 2026•Fontes: InfoMoney, G1

O combate às facções criminosas transnacionais é a prioridade declarada do governo de Donald Trump para o Hemisfério Ocidental, uma frente em que Washington se uniu a governos conservadores da América Latina. É justamente essa cooperação, porém, que atravessa o pior momento entre Estados Unidos e Brasil, as duas nações mais populosas do hemisfério. Segundo reportagem do jornal The New York Times publicada neste sábado (12), à qual o G1 e o InfoMoney tiveram acesso, a deterioração diplomática entre os dois países já alcança o trabalho conjunto de polícias e autoridades fiscais.

De acordo com uma autoridade americana e três brasileiras de alto escalão, ouvidas sob condição de anonimato, o Departamento de Estado dos EUA está retendo os vistos de dois agentes da Polícia Federal designados para postos em Miami e Nova York, onde trabalharia junto ao Homeland Security Investigations, órgão de investigação criminal do governo americano, e a outras agências federais. Os agentes já haviam sido aprovados pelas duas partes no início do ano e deviam assumir os postos no mês passado. Em resposta, o Brasil bloqueou o visto de um agente de segurança pública americano que seria enviado ao país. Washington também recusou, alegando agenda lotada, a visita à capital americana de uma equipe de quase uma dúzia de agentes da Receita Federal e da Aduana que investigam lavagem de dinheiro e contrabando de armas ligados a facções do narcotráfico.

Para o Brasil, o custo é direto. O país é rota estratégica da cocaína destinada à Europa e à África, as facções nacionais usam o sistema bancário americano para lavar dinheiro e compram armas enviadas ilegalmente de estados dos EUA, como mostra a prisão recente, pela Polícia Federal, de dois homens com peças de armamento vindas da Flórida. Segundo o New York Times, em maio Washington classificou as duas maiores facções criminosas do país como organizações terroristas, após pressão de aliados de Jair Bolsonaro, e a medida vazou investigações secretas da PF e forçou prisões apressadas. No mesmo mês, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregou pessoalmente a Trump, na Casa Branca, uma proposta de combate conjunto às facções centrada no bloqueio de armas. O governo americano nunca respondeu ao plano.

Como o impasse começou

A escalada começou em abril, quando o governo Trump expulsou dos EUA o delegado da PF Marcelo Ivo de Carvalho, acusando-o de promover uma "caça às bruxas política" por seu papel na prisão de um ex-chefe da inteligência brasileira no inquérito sobre a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. O Brasil respondeu revogando as credenciais de um agente de segurança americano em Brasília. Segundo o jornal, o desgaste se aprofundou em meio a tentativas do governo americano de interferir em assuntos internos brasileiros e à aparente disposição de Washington de ajudar Flávio Bolsonaro, candidato de direita que disputa com Lula, de esquerda, a eleição presidencial de outubro.

A parceria policial entre os dois países é antiga: investigações conjuntas já desmantelaram esquemas internacionais de corrupção, redes de pirataria e organizações de tráfico de pessoas, e a agência de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) mantém um adido no Brasil há mais de duas décadas. A cooperação técnica pontual segue funcionando, como o sistema de alertas cruzados sobre contêineres suspechos que já ajudou a interceptar armas contrabandeadas. Mas o Brasil ficou de fora de novas iniciativas regionais de segurança americanas, como a aliança "Escudo das Américas" e encontros na ONU (Organização das Nações Unidas).

O estrago maior, avaliam analistas, está na confiança. "A percepção é que a política de segurança dos EUA em relação ao Brasil ficou contaminada pela política. Isso não levou a uma ruptura definitiva, mas introduziu novas complexidades na relação e a permeou de desconfiança", disse Robert Muggah, diretor de pesquisa do Instituto Igarapé. Para Edvandir Felix de Paiva, presidente da associação de delegados da Polícia Federal, a lógica é simples: "hoje, as facções criminosas não conhecem fronteiras; por isso, precisamos trabalhar juntos".

O que dizem os governos

Procurado, o Departamento de Estado não comentou os vistos, mas afirmou em nota que o governo Trump protege "a nação e seus cidadãos ao manter os mais altos padrões de segurança nacional e segurança pública" em seu processo de concessão de vistos, e que seguirá trabalhando com o Brasil em "interesses compartilhados de longa data". A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) disse estar comprometida em manter o diálogo com autoridades brasileiras sobre segurança e combate ao crime transnacional. A Polícia Federal e o Itamaraty não comentaram o caso; o ministério responsável pela Receita Federal afirmou que os dois países mantêm diálogo de troca de boas práticas. Para o ex-embaixador americano Jimmy Story, citado pelo jornal, esse tipo de diplomacia gera um afastamento contraproducente entre os dois países.

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