Os Estados Unidos retomaram os bombardeios contra embarcações que, segundo o governo americano, transportam drogas em águas próximas à América do Sul, após dois meses de aparente trégua. O Comando Sul dos Estados Unidos (Southcom), comando militar responsável pelas operações na América Latina, anunciou na segunda-feira (24) um "ataque cinético letal" contra uma lancha que navegava no Pacífico Oriental, em rota apontada como corredor de narcotráfico. As duas pessoas a bordo morreram, informou o Southcom, sem apresentar evidências da carga.
Segundo a Folha de S.Paulo, o ataque ocorreu no domingo (23), mais de dois meses depois do último bombardeio anunciado por Washington, em 21 de junho. O padrão se repetiu: um vídeo publicado pelo Southcom na rede social X mostra a lancha em movimento sendo atingida por um projétil e explodindo em chamas, cena semelhante à dos mais de 60 ataques que, somados, mataram ao menos 220 pessoas desde o início da campanha. "A operação resultou na morte de dois narcoterroristas", escreveu o comando, usando o termo empregado pelo governo Donald Trump para os suspeitos de tráfico. Na operação de junho, duas pessoas morreram e outras seis que estavam na embarcação sobreviveram ao míssil americano, informa a Folha.
"Deixe-me ser claro: não permitiremos que narcoterroristas operem impunemente no hemisfério Ocidental nem que seu veneno mortal chegue às comunidades americanas. Esta operação é uma demonstração poderosa de nossa precisão letal, capacidade esmagadora e determinação absoluta em proteger o território dos EUA", afirmou o general Francis Donovan, chefe do Comando Sul.
Para o Brasil, a retomada acende um alerta diplomático. O país, assim como o México, ficou de fora do Escudo das Américas, coalizão antidrogas lançada por Trump em março, em uma cúpula em Miami, que reúne cerca de 20 países da América Latina e do Caribe, segundo O Globo. O pacto permite que Estados-membros solicitem apoio militar americano contra infraestrutura e rotas de cartéis, conforme a página da Wikipédia sobre a iniciativa. Fora da coalizão, o governo brasileiro acompanha à distância uma campanha que pode sair do mar: de acordo com a Gazeta do Povo, a retomada dos bombardeios vem acompanhada de declarações de que os Estados Unidos devem realizar em breve ações terrestres na região, cenário que colocaria a soberania dos países sul-americanos no centro do debate.
Aliados de Washington se movimentam na região
Os governos alinhados a Trump, por sua vez, avançam. Na quarta-feira (26), o Equador anunciou que fará operações conjuntas de combate às drogas com a Colômbia e os Estados Unidos na fronteira com o país vizinho, onde atuam diversos grupos armados, informou O Globo. "Os Estados Unidos também farão parte das estratégias que implementaremos", disse o ministro da Defesa equatoriano, Gian Carlo Loffredo. Tanto o presidente Daniel Noboa quanto Abelardo de la Espriella, o político de direita eleito presidente da Colômbia em 21 de junho, mesmo dia do último ataque naval antes da trégua, integram a coalizão liderada por Trump.
A ofensiva tem também um capítulo verbal. Desde a cúpula de Miami, Trump passou a chamar o México de "epicentro" da atividade dos cartéis no hemisfério e a criticar diretamente a presidente Claudia Sheinbaum, segundo a cobertura da imprensa americana compilada pela Wikipédia. A retórica, somada à promessa de agir em terra, mantém os governos da região em expectativa sobre os próximos alvos de Washington.
A eficácia da campanha, porém, é questionada. Especialistas ouvidos pela Folha apontam que a rota marítima bombardeada no Pacífico não é a principal via de tráfico de drogas para os Estados Unidos.