A 81ª sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) começa na terça-feira (22), em Nova York, em um momento de conflitos internacionais em multiplicação e de disputas comerciais crescentes. Por tradição mantida desde a 10ª sessão, em 1955, o Brasil será o primeiro país a discursar no debate geral. Segundo a Jovem Pan, com base em documento compartilhado pelo governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve centrar a fala na defesa da soberania nacional, na negociação como caminho para a solução de disputas e no respeito ao direito internacional humanitário.
O material que orienta o discurso apresenta o multilateralismo como "uma das linhas centrais da política externa brasileira, em um cenário marcado pela multiplicação de conflitos internacionais". O debate geral vai de 22 a 26 e 28 de setembro e será presidido pelo chanceler de Bangladesh, Khalilur Rahman. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, permanece em Nova York durante toda a semana para uma série de reuniões ministeriais.
Para o Brasil, o palco da ONU chega em momento delicado. Os interesses são explícitos: Washington exige, em documentos oficiais, resultados contra o narcotráfico e a não prisão "arbitrária" de "dissidentes políticos", enquanto Brasília busca reverter as tarifas de 50% impostas pelos americanos e reafirma o princípio da não interferência em assuntos internos. Ao levar a discussão à tribuna da Assembleia, o governo pode apresentar o atrito como uma questão de princípio diante de uma audiência global, na reta final da campanha presidencial, com Lula candidato à reeleição.
Tensão com Washington
O atrito se agravou nesta semana. Na terça-feira (15), o presidente americano, Donald Trump, afirmou, no relatório anual sobre o combate internacional ao narcotráfico enviado ao Congresso dos EUA, que o Brasil "falhou" no enfrentamento ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV), facções que os Estados Unidos designam como organizações terroristas estrangeiras. Segundo a VEJA, Trump disse que os dois grupos transformaram o país "em um centro de distribuição global de cocaína". Na quinta-feira (17), em outro documento, ele exigiu que o Brasil não prendesse ou impedisse "arbitrariamente" que "dissidentes políticos" disputassem a eleição presidencial de 2026, relata a Jovem Pan.
A exigência retoma um episódio de outubro de 2025, quando o governo americano entregou ao Brasil uma lista de 21 exigências, durante reuniões em Washington para tentar reverter as tarifas de 50%. O texto causou forte mal-estar no governo brasileiro, que considerou a iniciativa uma interferência direta em assuntos internos do país. Segundo fontes ouvidas pelo jornal O Estado de S. Paulo, o chanceler Mauro Vieira considerou a proposta "inaceitável" e determinou que ela nem sequer fosse debatida em reuniões formais com autoridades americanas.
Encontro com Zohran Mamdani
Fica também confirmado, para a segunda-feira (21), véspera da abertura, um encontro entre Lula e o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Solicitada pelo próprio prefeito, a reunião será a primeira entre os dois e ocorrerá na residência do embaixador Sérgio Danese, representante do Brasil na ONU, onde o presidente ficará hospedado. É um dos poucos compromissos definidos na agenda de Lula em Nova York, segundo a VEJA. Mamdani, da ala mais à esquerda do Partido Democrata e um dos principais críticos de Trump, é o primeiro muçulmano a comandar a prefeitura da cidade. Nascido em Uganda e naturalizado americano em 2018, ele se opõe às detenções e deportações em massa de imigrantes em situação irregular e, segundo a VEJA, ajudou o Consulado do Brasil a encontrar um local de votação mais seguro para a comunidade brasileira diante de possíveis ações da ICE, a polícia de imigração americana. Às vésperas de um discurso sobre soberania, o encontro mostra que Brasília mantém interlocutores nos Estados Unidos para além da Casa Branca. Na abertura do debate geral, Trump discursará na sequência do brasileiro.