Os houthis, rebeldes do Iêmen aliados ao Irã, tomaram na quinta-feira (10) o porto de Mokha, no sudoeste do país, das mãos do governo iemenita. A Arábia Saudita, que apoia o governo na guerra civil, respondeu com ataques aéreos na província de Taiz, onde fica a cidade, e o conflito, congelado desde 2022, voltou a se ampliar. O barril de Brent, referência internacional do petróleo, subiu 6,3% e fechou a US$ 107,63, o maior nível desde maio, segundo o G1, com informações das agências Associated Press (AP) e France Presse (AFP).
A ofensiva importa porque Mokha fica a poucos quilômetros do estreito de Bab el-Mandeb, passagem de cerca de 100 quilômetros de extensão e 30 de largura entre o Iêmen e o Djibuti que liga o oceano Índico ao mar Vermelho. O estreito integra a principal rota marítima entre a Ásia e a Europa, pelo canal de Suez, e passou a ser essencial para o petróleo saudita desde que a guerra entre Estados Unidos e Irã interrompeu o tráfego pelo estreito de Ormuz, até então o centro da crise. Segundo a Folha de S.Paulo, o porto de Yanbu, no mar Vermelho, vinha escoando até 70% da produção saudita, e os houthis tentam desde julho impor um embargo às cargas que saem de lá.
Para o Brasil, o efeito chega pela bomba de combustível. O Brent era negociado abaixo de US$ 72 no início de julho e já acumula alta superior a 49%. Na quarta-feira (9), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou um decreto que amplia o subsídio da gasolina de R$ 0,44 para R$ 0,63 por litro, zera os tributos federais sobre o etanol hidratado e autoriza, por medida provisória, uma subvenção de R$ 1 por litro de diesel, somada aos R$ 1,12 vigentes até 26 de setembro. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram a gasolina a R$ 6,51 e o diesel S-10 a R$ 6,88 por litro, em média, na semana encerrada em 5 de setembro.
Interesses em jogo
No tabuleiro regional, a Arábia Saudita, segundo maior produtor mundial de petróleo, perdeu o acesso ao Ormuz e depende da saída pelo mar Vermelho, justamente o corredor ameaçado pelos houthis. O Irã apoia o grupo e disputa com Riad a influência no Iêmen desde que os rebeldes tomaram a capital, Sanaa, em 2014. A Folha lembra, porém, que mesmo um improvável acordo entre Washington e Teerã não encerraria o problema, porque os houthis seguem agenda própria. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump enfrenta o peso do petróleo mais caro sobre a inflação a dois meses das eleições legislativas de novembro; na quarta-feira, afirmou que os preços dificilmente cairão antes da votação, um dia depois de dizer que espera ver o conflito encerrado logo após o pleito.
A escalada no Iêmen começou em julho, quando forças governamentais apoiadas pela Arábia Saudita passaram a bloquear o espaço aéreo de Sanaa, rompendo a trégua informal vigente desde 2022. Além de ameaçar navios sauditas, os houthis intensificaram ataques contra a infraestrutura de energia do reino, segundo o G1. Com dois pontos de estrangulamento sob risco, Ormuz e Bab el-Mandeb, o mercado passou a precificar uma oferta global mais apertada, e o foco da crise do petróleo se deslocou do golfo Pérsico para o mar Vermelho.