Os Estados Unidos confirmaram na segunda-feira (14) que mantêm armas posicionadas na órbita da Terra, a primeira vez que Washington reconhece oficialmente esse tipo de capacidade ofensiva no espaço. A declaração veio do secretário da Força Aérea americana, Troy Meink, durante a conferência Air, Space and Cyber, e foi complementada por uma nota da Força Espacial dos EUA, criada em 2019 como primeiro novo ramo das Forças Armadas americanas em mais de 70 anos.
Meink disse que a arma em órbita é necessária para proteger as forças americanas contra ações hostis e que o país está preparado para enfrentar "ameaças em evolução". Nenhuma autoridade detalhou as capacidades do sistema nem quando ele entrou em órbita. O especialista em usos militares do espaço Bleddyn Bowen, ouvido pela BBC, disse que pouco se sabe publicamente sobre a tecnologia e especulou que se trata de uma plataforma de guerra eletrônica ou de interferência de rádio, tipo de arma que já existe na Terra; um veículo de destruição cinética seria menos provável, porque geraria grande quantidade de detritos. Em nota, a Força Espacial descreveu o que chama de controle espacial:
"O controle espacial abrange as áreas de missão necessárias para disputar e controlar o domínio espacial, empregando meios cinéticos e não cinéticos para afetar as capacidades de adversários por meio de interrupção, degradação e até destruição, se necessário. Essas capacidades podem ser empregadas para fins ofensivos e defensivos sob orientação dos comandos combatentes."
Para o Brasil, o anúncio chega a um país que historicamente trata o espaço como terreno diplomático. Signatário do Tratado do Espaço Sideral de 1967, o Brasil defende o uso pacífico do espaço em fóruns das Nações Unidas e não mantém armas antissatélite. Sua presença em órbita se resume a satélites de comunicação e observação, como o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC-1), operado pela estatal Telebras junto ao Ministério da Defesa, e a série Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS), construída com a China desde 1988. Brasília também assinou em 2019 um acordo que autoriza lançamentos com tecnologia americana a partir da base de Alcântara, no Maranhão. Um confronto em órbita, com detritos capazes de inutilizar satélites de qualquer país, atingiria inclusive quem não disputa essa corrida.
Pequim e Moscou reagem
A China e a Rússia responderam na terça-feira (15). "Instamos o lado americano a parar de expandir suas capacidades militares e de se preparar para a guerra no espaço sideral", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, que também alertou contra uma corrida armamentista. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que "o espaço deve estar livre de qualquer arma" e disse contar com "um amplo consenso internacional" para trabalhar pela completa desmilitarização do espaço, informou a Folha de S.Paulo, com base na agência France-Presse (AFP).
O apelo à desmilitarização vem de dois governos que, segundo Washington, constroem capacidade semelhante. Na mesma nota, a Força Espacial afirma que a China "desenvolve e opera capacidades espaciais e antiespaciais como parte de uma estratégia de modernização militar" e que a Rússia "vê o espaço como um domínio de guerra" e considera a supremacia espacial um fator decisivo em conflitos futuros. Em 2024, os EUA afirmaram que a Rússia havia lançado um satélite capaz de atacar outros aparelhos do tipo, o que Moscou nunca comentou publicamente. Em fevereiro, foi revelado que dois satélites russos provavelmente interceptaram as comunicações de pelo menos uma dúzia de satélites europeus desde a invasão da Ucrânia, em 2022.
Uma corrida antiga
A militarização acompanha a era espacial desde o início: depois do satélite soviético Sputnik, em 1957, Washington e Moscou passaram a explorar formas de armar equipamentos em órbita e de destruir os do adversário. O Tratado do Espaço Sideral de 1967, assinado pelos dois países e outras potências, proíbe apenas armas de destruição em massa em órbita; capacidades convencionais, como ataques a satélites, ficaram fora do texto. Desde então, EUA, Rússia, China e Índia desenvolveram formas de operar militarmente no espaço sem violar o tratado.
A confirmação americana chega depois de anos de sinais. Altos comandos militares já haviam dito que planejavam ampliar as capacidades militares no espaço, citando os programas russo e chinês. No ano passado, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva que destaca o papel da Força Espacial como força de ataque, e o governo liga as capacidades em órbita ao Golden Dome, o sistema de defesa planejado para proteger o território americano de mísseis e outras ameaças aéreas.