Os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Rússia, Vladimir Putin, falaram ao telefone nesta terça-feira (8) para discutir o fim da guerra na Ucrânia e uma "retomada em larga escala" das relações entre os dois países, segundo o Kremlin. A ligação durou mais de uma hora e a conversa foi "aberta e construtiva", informou o governo russo. Até a última atualização do g1, o governo americano ainda não havia se manifestado sobre o contato.
Na leitura de Moscou, o desfecho da guerra é a chave para normalizar os laços bilaterais. "Trump enfatizou a necessidade de encerrar o conflito na Ucrânia, o que abriria perspectivas para uma retomada em larga escala das relações entre a Rússia e os EUA", diz o comentário oficial divulgado pelo assessor presidencial Yury Ushakov e reproduzido pelo g1. Putin garantiu ainda a Trump que não tem "planos hostis" contra a Europa. A garantia chega em semana sensível: o g1 noticiou que mais de 20 países europeus registraram incidentes com drones militares durante a guerra, com episódios no espaço aéreo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que alimentam acusações de que Moscou trava uma "guerra híbrida" contra o continente.
Para o Brasil, o efeito é indireto, mas relevante. Uma eventual normalização entre Washington e Moscou diminuiria a pressão externa sobre países que nunca aderiram ao isolamento da Rússia, caso do Brasil, que integra com os russos o Brics, o grupo que reúne grandes economias emergentes. O canal entre Brasília e Moscou segue ativo: no domingo (7), quando o Brasil celebrou a Independência, Putin enviou saudações ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conforme registro no site oficial do Kremlin. Na mesma semana, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, percorre aliados de Trump na América Latina sem incluir o Brasil no roteiro. Há também interesse econômico direto: a Rússia está entre os principais fornecedores de fertilizantes do agronegócio brasileiro, e um desfecho negociado da guerra tenderia a aliviar pressões sobre preços de energia e insumos.
O circuito Moscou-Kiev
O telefonema fecha uma semana de diplomacia intensa. Os enviados Steve Witkoff e Jared Kushner reuniram-se com Putin no Kremlin na sexta-feira (5), seguiram para conversas com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, e deixaram Kiev no domingo (6), segundo a Agência Brasil, com reportagem da Reuters. Para proteger a missão, Moscou e Kiev suspenderam por três dias os ataques às respectivas capitais. Poucas horas após a partida dos emissários, a Rússia retomou o bombardeio de Kiev com drones e mísseis: três pessoas morreram e 16 ficaram feridas, informaram o prefeito Vitali Klitschko e o ministro do Interior, Ivan Vyhivskyi. "No momento em que os enviados de paz do presidente dos EUA partiram, Putin lançou outro ataque massivo e terrível contra Kiev", escreveu o chanceler ucraniano, Andrii Sybiha, na rede X.
O que cada lado quer
A guerra, que completa quatro anos e meio, entrou em fase decisiva para os principais jogadores. Washington busca encerrar o conflito europeu ao mesmo tempo em que enfrenta o Irã: os EUA disseram ter destruído cinco petroleiros iranianos perto da ilha de Kharg, conforme o g1. Moscou trata do fim das sanções e do retorno ao convívio econômico como recompensa de uma paz negociada, e não descartou a retomada das negociações tripartites com ucranianos e americanos, segundo a Reuters. Kiev pede pressão sobre Moscou e interceptores para mísseis balísticos, com estoques de defesa criticamente baixos. Na Europa, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que defende reaproximação com a Rússia e o fim das sanções, venceu a eleição estadual da Saxônia-Anhalt com cerca de 44% dos votos, a primeira vitória do tipo na Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial, e Trump comemorou o resultado.
Nenhuma nova rodada de negociações tinha data marcada até a noite desta terça. O Estadão noticiou otimismo crescente com as negociações após a visita dos emissários, e o telefonema dá seguimento ao canal aberto no encontro de Trump e Putin no Alasca, no ano passado, segundo o g1.