De Madri a Buenos Aires e Nova York, os principais veículos de imprensa internacional dedicaram cobertura nesta semana às mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e um número atribuído ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O jornal espanhol El País classificou as revelações como uma "bomba atômica"; o argentino La Nación falou em "terremoto político e institucional". A repercussão começou depois que o relatório da Polícia Federal (PF) sobre o caso Master se tornou público na terça-feira (1º), após o ministro André Mendonça, relator do caso no STF, retirar o sigilo do documento.
Entre as mensagens está uma troca de 15 de novembro de 2025, dois dias antes de a PF prender Vorcaro na Operação Compliance Zero. "Acha que segunda já tenho que estar fora?", escreveu o banqueiro ao número atribuído a Moraes, em conversa divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo. Segundo reportagens do g1 e da BBC News Brasil que reuniram a repercussão estrangeira, as mensagens indicam que os dois discutiram a estratégia para frustrar a ordem de prisão expedida pela 10ª Vara Federal do Distrito Federal e que Vorcaro teria pedido a Moraes que interferisse em seu favor junto ao diretor da PF, Andrei Rodrigues, e junto ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Por que o caso ecoa no exterior
Para o Brasil, o momento é delicado: as revelações caem a menos de cinco semanas das eleições presidenciais de 4 de outubro, descritas pelo jornal argentino Clarín como uma disputa direta entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. O El País lembra que o caso Master envolve diretamente o candidato da oposição, porque Vorcaro teria dado US$ 10 milhões a Flávio Bolsonaro, supostamente para financiar uma cinebiografia sobre o pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Para o jornal espanhol, quem vencer a eleição poderá nomear ministros para as três vagas que surgirão no STF e alterar uma maioria que hoje favorece Moraes.
O interesse estrangeiro tem recortes distintos. O El País destacou o relógio eleitoral e a disputa interna no tribunal; os jornais argentinos, o abalo institucional; a agência norte-americana Bloomberg, voltada ao mercado financeiro, o risco para a credibilidade da corte. "Moraes permanece em silêncio diante dessas revelações, que caíram como uma bomba atômica a menos de cinco semanas das eleições", escreveu o El País. Segundo o jornal, as primeiras suspeitas de uma relação entre os dois surgiram meses atrás, quando se soube que o escritório da esposa do ministro havia sido contratado pelo banqueiro.
Terremoto e teste decisivo
"Alexandre de Moraes, considerado o juiz mais poderoso do país e relator do julgamento da tentativa de golpe de 2023, viu-se no centro de um escândalo sem precedentes na terça-feira, após surgirem evidências de uma relação excessivamente próxima com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que está preso e sendo investigado por fraudes financeiras multimilionárias envolvendo o extinto Banco Master."
O trecho é do La Nación, na tradução publicada pelo g1. O jornal argentino avaliou o impacto das revelações como "sísmico devido ao próprio peso de Moraes" e escreveu que, com o caso nas mãos do plenário do STF, o homem que personificou a corte "se prepara para enfrentar o teste mais difícil contra o seu próprio gabinete". A Bloomberg escreveu que os documentos recolocaram Moraes no centro de um caso que já ameaçava a credibilidade da mais alta corte brasileira e que os adversários do ministro renovaram os pedidos de afastamento. A agência lembrou que ele ganhou projeção internacional nos embates com o bilionário da tecnologia Elon Musk e no julgamento que condenou Jair Bolsonaro por tramar um golpe após a derrota nas eleições de 2022, e o descreveu como uma figura que divide o Brasil, alvo de críticas de conservadores que o acusam de censura na ofensiva contra as chamadas fake news.
O El País também apontou que Mendonça, que liberou o sigilo das mensagens, e Moraes "estão envolvidos numa luta silenciosa pelo poder dentro do tribunal há meses". O caso agora aguarda decisão do plenário, e as citações dos veículos estrangeiros chegaram aos leitores brasileiros por meio das traduções publicadas pelo g1 e pela BBC News Brasil.