A China anunciou neste sábado (26) que chegou a um acordo com os Estados Unidos para reduzir tarifas comerciais, em medidas que incluem um pacote tarifário estimado em US$ 30 bilhões (cerca de R$ 156 bilhões), e iniciar um diálogo sobre inteligência artificial (IA). O anúncio coube ao Ministério das Relações Exteriores chinês e detalha o que ficou combinado na cúpula de três dias entre o presidente chinês, Xi Jinping, e o americano, Donald Trump, em Washington, encerrada na sexta-feira (25).
Segundo reportagem do G1, baseada na agência Reuters, o corte tarifário integra um consenso de oito pontos alcançado durante a visita de Xi a Washington. Os dois países também concordaram em criar um conselho comercial e dar continuidade aos entendimentos de negociações anteriores, realizadas em Kuala Lumpur. O anúncio vem depois de Estados Unidos e China decidirem prorrogar por dois meses a trégua comercial que terminaria em 10 de novembro. Para o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, a extensão dá aos dois países mais tempo para negociar um acordo comercial mais amplo.
Para o Brasil, o desfecho toca as duas pontas do seu comércio exterior. A China é o maior parceiro comercial do país, e os Estados Unidos, um dos maiores compradores de produtos brasileiros. Uma trégua duradoura entre as duas maiores economias do mundo reduz a incerteza sobre o comércio global e, ao mesmo tempo, deve endurecer a concorrência em um mercado sensível: ao encerrar a cúpula, Trump disse esperar que "nossos agricultores ficarão felizes" com os resultados, sem dar detalhes, segundo a CNN Brasil. A frase alcança diretamente o agronegócio brasileiro, que disputa com os exportadores americanos a demanda chinesa por alimentos.
O que cada lado quer
Os interesses em jogo apareceram no próprio protocolo da visita. No jantar de gala oferecido por Trump na Casa Branca, na quinta-feira (24), estavam o presidente da Nvidia, Jensen Huang, a executiva-chefe da AMD, Lisa Su, Elon Musk e Tim Cook, que deixou a presidência da Apple no mês passado, segundo a CNN Brasil, com informações da CNN e da Reuters. Do lado americano, Bessent fala em acordo comercial mais amplo, e o embaixador dos EUA na China, David Perdue, disse à CNBC que qualquer ajuda da China ao Irã, direta ou indireta, é "totalmente inaceitável". Pequim busca previsibilidade: Xi descreveu a relação entre os países como uma "estabilidade estratégica" baseada em respeito, justiça e reciprocidade. Segundo o ministério chinês, os líderes também concordaram que o Irã deve cumprir o compromisso de não desenvolver armas nucleares e que nenhum país ou entidade deve cobrar taxas pela passagem em vias navegáveis internacionais.
"Esta visita histórica enriqueceu a relação construtiva e estável entre a China e os EUA, manteve a estabilidade geral dos laços bilaterais, abriu um novo capítulo nas relações China-EUA e terá um impacto de longo alcance na paz e no desenvolvimento mundial", disse o chanceler chinês, Wang Yi, em comunicado.
A cúpula em si terminou sem anúncios públicos de acordos concretos; os detalhes vieram de Pequim um dia depois, e a embaixada americana na capital chinesa não respondeu imediatamente ao pedido de comentário feito pela Reuters. Xi já retornou a Pequim, segundo a agência estatal chinesa Xinhua.
IA entra na pauta bilateral
Na área de inteligência artificial, os dois países concordaram em manter discussões sobre os riscos e benefícios da tecnologia e criar um canal de comunicação para incidentes relacionados à IA, com a próxima rodada de conversas prevista para novembro. Pequim avaliou como positivo o uso, por Washington, do termo "superinteligência" em vez de "inteligência artificial", segundo o ministério. Xi defendeu o controle humano sobre a tecnologia: "Temos tanto a capacidade quanto a responsabilidade de desenvolver e gerir a IA para o bem, e de garantir que o desenvolvimento da IA esteja sempre sob controle humano e sirva ao bem-estar das pessoas." Os líderes ainda sinalizaram presença nos encontros promovidos um pelo outro: a cúpula da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), na China, e o G20, em Miami.