O governo do presidente americano Donald Trump lançou nos últimos dias uma ofensiva em várias frentes contra estrangeiros nos Estados Unidos, com medidas que atingem candidatos à residência permanente, turistas e profissionais qualificados. As iniciativas, reunidas pelo G1 a partir de reportagens do jornal Financial Times e da agência Associated Press (AP), incluem a suspensão de entrevistas para vistos de imigração em todo o mundo, a preparação da maior revogação coletiva de vistos da história do país e uma taxa de mais de US$ 100 mil para vistos de trabalho altamente qualificados.
A medida já em vigor é a suspensão, até segunda ordem, do agendamento de entrevistas em embaixadas e consulados americanos para candidatos a vistos de imigração, categoria que inclui o green card, o documento de residência permanente nos EUA. Segundo o Departamento de Estado americano, a pausa está ligada a um programa global de treinamento de funcionários consulares, sem prazo informado para terminar. Os agendamentos de vistos de não imigrantes, como os de turismo, seguem funcionando normalmente. De acordo com o Financial Times, candidatos que já tinham entrevistas marcadas receberam e-mails avisando que os agendamentos serão remarcados, com nova data a ser informada depois.
Para o Brasil, o impacto aparece em duas pontas. Brasileiros que aguardavam entrevistas para vistos de imigração em representações americanas ficam, por ora, sem data definida. No segmento profissional, o Brasil aparece em 9º lugar entre as nacionalidades mais contratadas por empresas americanas com o visto H-1B, destinado a trabalhadores estrangeiros altamente qualificados, segundo dados das plataformas Visual Capitalist e Statista citados pelo G1. Índia e China lideram essa lista.
Revogação em massa e taxa de US$ 100 mil
O Departamento de Estado deve anunciar nas próximas semanas a revogação dos vistos de negócios e turismo (categorias B1 e B2) de até 200 mil estrangeiros que pediram asilo ou têm processos de asilo em andamento nos EUA. Os vistos afetados foram emitidos entre 2016 e 2026, segundo documentos obtidos pela AP. Se confirmada, será a maior revogação coletiva de vistos da história americana e deve ser contestada na Justiça. Funcionários ouvidos pela agência afirmam que a revogação não significa deportação imediata: a maioria das pessoas deve ter o status migratório alterado, mas perderá a condição de visitante de negócios ou turismo.
Na terceira frente, a Casa Branca divulgou uma proposta de regulamentação para oficializar uma taxa de US$ 103.265 (cerca de R$ 531 mil) sobre novos vistos H-1B, que hoje custam entre US$ 2.000 e US$ 5.000. A cobrança já havia sido imposta por Trump no ano passado, mas a Justiça americana a considerou ilegal e proibiu a exigência. O governo recorreu, e o caso está em análise em um tribunal de apelações. O programa H-1B é usado principalmente pelos setores de tecnologia, educação e pesquisa.
Os interesses em disputa são claros. Trump argumenta que as empresas usam o H-1B para substituir trabalhadores americanos por mão de obra estrangeira mais barata, enquanto diversas companhias afirmam que o visto supre a escassez de profissionais qualificados. Para Índia e China, principais fontes desses trabalhadores, o encarecimento do visto afeta setores inteiros de tecnologia e serviços. Para países como o Brasil, com comunidades de imigrantes e profissionais nos EUA, a combinação de entrevistas paralisadas, revogações planejadas e novas taxas cria um cenário de incerteza que tende a ser definido nos tribunais americanos, para onde as medidas devem parar.