O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai receber em Brasília, na próxima semana, um grupo de cerca de dez deputados argentinos de oposição ao governo de Javier Milei, segundo apuração publicada nesta sexta-feira (28) pelo blog do jornalista Valdo Cruz, no portal G1. Integrantes do Ministério das Relações Exteriores e da Secretaria de Relações Institucionais (SRI) devem participar dos encontros, que fazem parte da estratégia do Palácio do Planalto de normalizar as relações entre Brasil e Argentina.
Brasil e Argentina são aliados históricos e os dois maiores parceiros econômicos da América do Sul, sócios fundadores do Mercosul, o bloco comercial sul-americano. A relação diplomática entre os dois países, no entanto, foi rebaixada ao nível de encarregados de negócios, abaixo de embaixadores, depois que Milei passou a atacar Lula publicamente, chamando o brasileiro de "ladrão", "corrupto" e "presidiário". Do lado do Planalto, os ministros Dario Durigan (Fazenda) e Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência) reagiram chamando o presidente argentino de "palhaço" e "caricatura patética".
Para o governo brasileiro, a aproximação com os deputados cria um canal de diálogo com o Legislativo do país vizinho que não depende da Casa Rosada. Assessores presidenciais ouvidos pelo G1 afirmam que o Brasil está disposto a conversar tanto com a oposição quanto com a equipe de Milei para deixar para trás os atritos recentes. Eles ressaltam que, apesar do rebaixamento diplomático, nada mudou na convivência prática entre os dois países. "Está tudo seguindo o ritmo normal", disse um assessor de Lula ao blog. O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, tem dito publicamente que as relações só voltarão ao nível de embaixadores quando os ataques de Milei a Lula cessarem.
Os interesses em jogo
A articulação acontece em pleno ano eleitoral no Brasil, o que dá ao gesto uma leitura política em Buenos Aires. Milei apoia abertamente a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário de Lula na disputa de outubro. O chanceler argentino, Pablo Quirno, que a princípio tentou reduzir a temperatura da crise ao afirmar que as divergências entre os dois presidentes não chegariam ao campo institucional, passou a declarar que a região vive uma mudança ideológica e que espera que ela também ocorra no Brasil.
Entre os deputados que articulam as conversas com o Itamaraty estão Nicolás Massot e Martín Lousteau. Nas redes sociais, eles afirmam que o objetivo do encontro é, segundo suas palavras, "abrir um canal de diplomacia parlamentar e contribuir para recompor um vínculo que nunca deveria ter sido afetado". De acordo com a GloboNews, as agendas e os temas das reuniões ainda estão sendo definidos, incluindo quem vai receber os parlamentares em Brasília.
Até o momento, o G1 foi o veículo que detalhou a articulação. O SBT News também noticiou que a oposição a Milei pediu reunião no Itamaraty. Não há previsão de contato direto entre Lula e Milei.