Moradores de Ceuta, enclave espanhol no norte da África, destruíram na noite de quinta-feira (27) um acampamento improvisado de migrantes montado em uma praia da cidade. Segundo o G1, que publicou imagens da Reuters, os manifestantes derrubaram barracas, jogaram pertences no mar e queimaram objetos em uma fogueira, enquanto agitavam bandeiras da Espanha e de Ceuta. A polícia formou um cordão de isolamento para impedir que o grupo avançasse sobre os migrantes, que assistiram à destruição de uma área próxima.
Antes de seguir para a praia, os manifestantes bloquearam uma estrada vizinha e entoaram palavras de ordem contra a presença de estrangeiros, entre elas "expulsem os invasores", conforme registro da Reuters. A ação ocorre quase um mês depois da travessia em massa de 30 de julho, quando cerca de 72 mil pessoas cruzaram a fronteira entre o Marrocos e o enclave, muitas a nado pelo Mediterrâneo. Autoridades espanholas contabilizaram 82 mortes do lado espanhol, e o Marrocos confirmou outras 14. Nos dias seguintes, milhares de migrantes retornaram ao Marrocos sob escolta policial, e cerca de 5 mil permanecem no território. Em 15 de agosto, a polícia marroquina prendeu pelo menos 111 pessoas que tentavam chegar a Ceuta após novas convocações nas redes sociais.
O episódio expõe a pressão sobre a política migratória da União Europeia em sua fronteira mais ao sul. Madri aposta na cooperação com países de origem e trânsito, enquanto Rabat nega a suspeita, levantada pelo Centro Nacional de Inteligência (CNI), o serviço secreto espanhol, de que autoridades marroquinas foram coniventes com a mobilização de julho. Para o Brasil, o caso tem relevância direta: brasileiros formam uma das maiores comunidades de imigrantes na Espanha, e o Itamaraty defende nos fóruns da ONU a mesma fórmula de migração "legal, segura e ordenada" agora invocada pelo governo espanhol.
Resposta do governo espanhol
Depois da travessia de julho, o governo da Espanha reforçou a segurança no enclave com mais de 500 policiais enviados do território continental. O ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, anunciou ainda um pacote de medidas para Ceuta e Melilla, o outro enclave espanhol no Marrocos, segundo o SBT News. Entre elas estão o prolongamento dos espigões de Tarajal e Benzú, a instalação de um sistema permanente de contenção marítima com boias ancoradas e a construção de um novo centro de atendimento temporário a estrangeiros, com capacidade para 800 pessoas.
"A Espanha continuará defendendo uma política europeia baseada na dimensão externa, na cooperação com países parceiros, no combate às máfias e na gestão integral dos fluxos migratórios. Um objetivo que os acontecimentos em Ceuta apenas reforçam", afirmou Grande-Marlaska.
A destruição do acampamento por civis, com a polícia em posição de contenção, é o episódio mais visível da escalada de tensões no enclave desde julho. Ceuta e Melilla são as únicas fronteiras terrestres da União Europeia com a África, o que as converte há anos em ponto de pressão migratória e de disputa diplomática entre Espanha e Marrocos.