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Trump abandona memorando com o Irã e negociações para reabrir Ormuz colapsam

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O governo do presidente americano Donald Trump informou aos mediadores internacionais que não tem interesse em retomar o memorando de entendimento assinado com o Irã em junho, segundo reportagem do Wall Street Journal publicada na quinta-feira (27). A decisão deixa a diplomacia sem um arcabouço para reiniciar as negociações sobre a reabertura do Estreito de Ormuz e provocou reação imediata nos mercados: o petróleo Brent superou os US$ 88 o barril e as principais bolsas recuaram.

O memorando, assinado no Palácio de Versalhes com participação do vice-presidente JD Vance nas negociações, previa a reabertura do estreito e o início de conversas sobre o programa nuclear iraniano em troca de alívio de sanções e do acesso de Teerã a ativos congelados no exterior. O entendimento começou a ruir semanas depois, quando o Irã passou a atacar navios para afirmar controle sobre a hidrovia. O prazo de 60 dias do acordo expirou em 17 de agosto sem consenso, e Trump recusou prorrogá-lo, afirmando que "não está com pressa", segundo o ND Mais.

Para o Brasil, o efeito prático passa pelo preço do petróleo. Pelo Estreito de Ormuz circula cerca de 20% do petróleo e do gás negociados no mundo, e a alta do Brent tende a pressionar o diesel, que o país importa em volume relevante, com reflexos em cadeia sobre frete e inflação. Exportador de petróleo bruto, o Brasil arrecada mais quando o barril sobe, mas paga mais caro pelos derivados que compra no exterior. A equação mantém o Banco Central e o governo atentos a um conflito que já pressiona o preço dos alimentos.

Os interesses em jogo

Do lado iraniano, a posição também é rígida. O porta-voz da Guarda Revolucionária do Irã, brigadeiro-general Hossein Mohebbi, disse à televisão estatal que o estreito pode ser reaberto se Washington voltar ao memorando, mas nos termos de Teerã. Setores conservadores iranianos leem o parágrafo 5 do acordo de junho como um reconhecimento da autoridade do Irã para impor condições ao tráfego, interpretação que Washington nunca endossou publicamente.

"Se os Estados Unidos pararem de obstruir e voltarem ao memorando de entendimento, podemos abrir o Estreito de Ormuz no marco do acordo alcançado. Nossas condições precisam ser aceitas pelos Estados Unidos", afirmou Mohebbi.

A semana foi de intensa diplomacia itinerante, sem resultado. O chefe do Exército do Paquistão, Asim Munir, viajou a Teerã e saiu de mãos quase vazias, segundo o Wall Street Journal. O ministro das Relações Exteriores de Omã tentou fechar um acordo de corredores de trânsito que serviria de degrau para negociações mais amplas, mas o esforço travou depois que o Irã pediu mudanças que lhe dariam mais controle sobre o tráfego; Teerã anunciou um entendimento que Mascate não confirmou. O primeiro-ministro do Catar, xeque Mohammed bin Abdulrahman al-Thani, também se reuniu com o chanceler iraniano, e o comunicado conjunto não anunciou avanço. Omã é o canal histórico entre Washington e Teerã: foi por ali que começaram as negociações do acordo nuclear de 2015. Ainda assim, segundo o ND Mais, Trump chegou a ameaçar atacar o sultanato caso ele "interferisse" nos esforços no estreito.

Sanções e um estreito semitravado

No front econômico, o Tesouro americano lançou em 25 de agosto a Operation Economic Outcast, com sanções a quase 60 entidades e a ampliação das sanções secundárias a cinco setores: ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, descreveu o pacote como uma "ofensiva econômica contra as conexões financeiras do Irã ao redor do globo". A revista VEJA, que apelidou a iniciativa de "Dia D Econômico", contabiliza quase 70 empresas sob embargo e destaca que a China, maior compradora do petróleo iraniano, avisou que pode retaliar os Estados Unidos.

No mar, a situação é de limbo. O tráfego pelo estreito subiu para 10 navios de commodities na quarta-feira, contra 8 na terça, ainda bem abaixo da média de cerca de 15 embarcações dos últimos dez dias, segundo dados da consultoria Kpler citados pela Reuters. Um petroleiro foi atingido por um projétil não identificado na quinta-feira, informou a agência britânica de operações marítimas UKMTO. De acordo com o ND Mais, o bloqueio naval americano, reimposto após o colapso do cessar-fogo, já redirecionou 44 embarcações comerciais. Nesta sexta-feira (28), a guerra completa seis meses, e o pesquisador Umer Karim, da Universidade de Birmingham, resumiu o momento à Reuters: "O antigo memorando está essencialmente morto em todos os aspectos. A tarefa dos mediadores ficou ainda mais difícil nas circunstâncias atuais."

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