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Rússia testa míssil balístico nuclear três dias após visita do chefe da CIA a Moscou

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O governo de Vladimir Putin testou nesta sexta-feira (28) um míssil balístico intercontinental capaz de transportar ogivas nucleares, três dias depois de uma visita rara e cercada de sigilo do diretor da CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos), John Ratcliffe, a Moscou. Segundo a Folha de S.Paulo, o lançamento do míssil Iars partiu do cosmódromo de Plesetsk, na região de Arkhangelsk, no noroeste da Rússia, e foi divulgado pelo Ministério da Defesa russo.

A viagem de Ratcliffe, realizada na terça-feira (25), foi confirmada pelo Kremlin no dia seguinte. O porta-voz Dmitri Peskov disse que o americano se reuniu com autoridades da área de inteligência, entre elas o chefe do SVR (Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia), Serguei Narichkin, mas não encontrou Putin, que teria sido informado de tudo, segundo a agência Associated Press. Peskov classificou as relações entre os dois países como uma "crise profunda" e se recusou a detalhar a pauta. O presidente americano, Donald Trump, minimizou a viagem e a chamou de "meio de rotina" em entrevista a uma rádio conservadora.

Para o Brasil, o episódio interessa em dois planos. No diplomático, o país é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e o Itamaraty tem defendido, desde 2022, uma saída negociada para a Guerra da Ucrânia, posição que fica mais difícil de sustentar a cada demonstração de força atômica. No econômico, qualquer escalada entre Rússia e Ocidente tende a pressionar os mercados de fertilizantes e grãos, dos quais a agropecuária brasileira depende.

O que cada lado quer

A tensão imediata tem endereço: Londres. Na segunda-feira (24), o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, esteve em Kiev ao lado do presidente Volodimir Zelenski na celebração do Dia da Independência ucraniano e prometeu facilitar a transferência de tecnologia para que a Ucrânia produza mísseis de cruzeiro Storm Shadow, modelo que Reino Unido e França já forneceram a Kiev, informou a Folha. O anúncio veio após a venda britânica de drones de ataque de curto alcance aos ucranianos. Em resposta, o Kremlin afirmou que passa a considerar indústrias bélicas britânicas, dentro ou fora da Ucrânia, alvos legítimos. Do lado russo, o teste do Iars funciona como recado à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte); do lado ocidental, Washington mantém aberto um canal direto com Moscou enquanto os europeus ampliam o apoio militar a Kiev.

O canal americano, aliás, teve custo prático: um funcionário graduado da Ucrânia contou à Associated Press que Washington avisou Kiev sobre a delegação e pediu a suspensão de ataques a Moscou, São Petersburgo e algumas regiões do norte russo até a partida dos americanos. Os bombardeios de longo alcance em outras áreas continuaram.

O teste ocorre em um momento em que os esforços de paz estão praticamente paralisados. Putin rejeitou o pedido de Zelenski por um cessar-fogo imediato e defende um acordo abrangente, ao mesmo tempo em que russos e ucranianos intensificam ataques de longa distância. Com a atenção americana dividida pela guerra contra o Irã, conflito no qual Moscou se ofereceu como mediador, gestos como o lançamento desta sexta leem-se mais como sinalização do que como preparação de uso real da arma. O especialista em serviços de segurança russos Andrei Soldatov lembrou à AP que visitas como a de Ratcliffe "não acontecem todo ano" e costumam ocorrer quando há um assunto urgente de segurança nacional. Em 2022, o então diretor da CIA, William Burns, encontrou Narichkin na Turquia justamente para alertar Moscou contra o emprego de armas nucleares na Ucrânia.

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