O governo brasileiro negou nesta quinta-feira que existam falhas ou omissões no enfrentamento ao crime organizado transnacional. Em nota, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) respondeu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que acusou o Brasil de ter falhado no combate às facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), ambas incluídas pelos EUA na lista de organizações terroristas.
As críticas constam de um relatório anual enviado pela Casa Branca ao Congresso norte-americano na terça-feira (15) e divulgado pelo Departamento de Estado na quarta (16), segundo o G1. Trata-se de uma determinação presidencial para o ano fiscal de 2027, prevista no Ato de Emergência Estrangeira de 1961, que identifica os grandes produtores e rotas de trânsito de drogas no mundo. No texto, Trump afirma que, enquanto outros governos do Hemisfério Ocidental tomam "medidas corajosas" contra os cartéis, o Brasil "falhou" no confronto com as duas facções. De acordo com o Poder360, o documento diz ainda que PCC e CV transformaram o país em um centro do fluxo global de cocaína.
"Essas organizações terroristas brasileiras representam uma ameaça crescente à paz e à segurança em todo o mundo, e o governo brasileiro precisa urgentemente adotar medidas firmes para enfrentá-las e derrotá-las antes que se espalhem e cresçam", diz o presidente norte-americano no documento.
A resposta de Brasília
O argumento central da nota é jurídico. Segundo o governo, o Brasil não integra a lista dos 23 países formalmente identificados pelos EUA como grandes produtores ou rotas de trânsito de drogas. A crítica, diz o texto, apareceu de forma "lateral", na parte narrativa do documento, "sem respaldo em sua parte dispositiva", e não corresponde à categoria jurídica de descumprimento formal prevista na legislação norte-americana que rege o mecanismo anual. Na prática, Brasília sustenta que Washington não emitiu uma classificação formal contra o país.
A nota afirma ainda que a avaliação americana desconsidera a Lei Antifacção, sancionada em março de 2026, que prevê penas mais severas para líderes de facções, além do Programa Brasil contra o Crime Organizado, lançado em maio, e das "dezenas de milhares de operações de combate ao crime" realizadas por forças federais. O governo lembra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregou pessoalmente, em 7 de maio, em Washington, uma proposta de medidas conjuntas contra lavagem de dinheiro, compartilhamento de inteligência e tráfico de armas, e que ainda aguarda a resposta dos EUA.
À CNN Brasil, o ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, citou a operação Força Integrada, realizada na quarta-feira (16) em 19 estados, como prova de que o Estado brasileiro age. Segundo o ministro, a ação cumpriu mais de 170 mandados de busca e apreensão, resultou em 137 prisões e 44 flagrantes e bloqueou judicialmente mais de R$ 508 milhões em bens e ativos.
"A operação contraria totalmente que o Estado brasileiro não está combatendo com eficiência o crime organizado. Só hoje foram bloqueados mais de meio bilhão de reais com participação de 19 estados da Federação envolvendo todo aparato policial dessas unidades", disse o ministro.
A troca pública de acusações ocorre meses depois de o Departamento de Estado classificar PCC e CV como organizações terroristas. Na ocasião, o governo Lula criticou a decisão e argumentou que ela abriria margem para intervenções norte-americanas em território brasileiro, citando como referência a operação militar que os EUA realizaram em janeiro na Venezuela, onde o presidente Nicolás Maduro foi preso sob a acusação de comandar um cartel de drogas. Na nota, o MJSP reafirma que o combate ao crime organizado é prioridade do governo federal e que o Brasil seguirá atuando "de forma soberana e coordenada".