Os enviados especiais do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, chegaram a Moscou neste sábado (5) portando uma proposta americana para encerrar a guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022. Pouco depois da chegada, o Kremlin anunciou que o presidente russo, Vladimir Putin, ordenou a suspensão de todos os ataques contra Kiev por três dias, a partir da meia-noite deste sábado, no horário local. Segundo a CNN Brasil, que reproduziu reportagem da Reuters, os dois devem se reunir com Putin e depois seguir para Kiev, pela primeira vez, para dar sequência às conversas.
Kirill Dmitriev, representante especial do presidente russo, recebeu a delegação no aeroporto de Vnukovo. A trégua decretada por Putin vale apenas para a capital ucraniana, e não para o restante do país. "Isso está relacionado à preparação e à realização dos contatos dos americanos em Kiev", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, à agência estatal russa TASS. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, respondeu com um gesto recíproco: afirmou no X que a Ucrânia se absterá de ataques a Moscou até segunda-feira (7), na expectativa de que os russos façam o mesmo com Kiev. Horas antes, ele havia relatado ataques russos contra dois aeroportos próximos da capital, incluindo o de Boryspil, que antes operava voos internacionais. Na leitura do líder ucraniano, os bombardeios foram uma reação aos preparativos para a possível chegada da delegação americana de avião, já que líderes estrangeiros viajam a Kiev de trem, partindo da Polônia, desde o início da guerra.
Para o Brasil, o rumo dessas negociações toca interesses concretos. O governo brasileiro defende uma solução negociada desde o início do conflito e propôs, junto com a China em 2023, um roteiro de paz de seis pontos. No campo econômico, a Rússia é um dos principais fornecedores de fertilizantes do agronegócio brasileiro, e o fim da guerra tenderia a aliviar a pressão sobre preços de energia e de grãos no mercado internacional. Um eventual acordo conduzido por Washington também mexeria na dinâmica dos Brics, grupo de economias emergentes que reúne Brasil e Rússia, ao mudar o lugar de Moscou diante do Ocidente.
O conteúdo da proposta americana não foi divulgado. Na sexta-feira (4), no Salão Oval, Trump chamou Witkoff, seu enviado especial, e Kushner, seu genro, de "grandes negociadores". "Eles estão trazendo uma proposta para acabar com a guerra", disse, acrescentando que "pode haver uma boa chance de conseguirmos isso". O presidente americano também atribuiu o conflito a uma questão de personalidade, entre Zelensky e Putin, e afirmou que já resolveu "oito guerras", a maioria, em sua avaliação, mais difícil do que a da Rússia com a Ucrânia. Na sexta, Zelensky disse esperar conversas "o mais construtivas e substantivas possível" e que é preciso buscar "opções realistas sobre como pôr fim a esta guerra".
Moscou resiste a concessões
Os sinais vindos da Rússia, contudo, são de dureza. "A administração dos EUA deve levar em conta a realidade no terreno em relação a uma solução para a Ucrânia, onde a situação não está mudando a favor de Kiev", declarou o vice-ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Ryabkov, à TASS. Suas palavras coincidem com os avanços graduais das forças russas nos últimos meses sobre um conjunto de cidades industriais da região de Donetsk, no leste do país. Na véspera da visita, um ataque atingiu diretamente a sede do SBU (Serviço de Segurança da Ucrânia) em Kiev, e Zelensky admitiu que a falta de interceptadores de defesa aérea deixa o país vulnerável a mísseis balísticos. Segundo o G1, a "guerra de drones" entre os dois países já afetou mais de 20 nações, com aparelhos penetrando o espaço aéreo de países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
A agenda prevê a reunião com Putin neste fim de semana e a ida a Kiev no domingo (6), dentro da janela de três dias sem ataques à capital ucraniana. Nenhuma das partes anunciou, porém, uma pausa geral nas operações militares. O resultado das conversas vai definir se a proposta americana avança ou se entra para a lista de rodadas de negociação que, desde a invasão de fevereiro de 2022, não produziram acordo.