Os líderes do Brics aprovaram por unanimidade neste sábado (12) a Declaração de Nova Délhi, documento final da 18ª cúpula do grupo, que vai até domingo (13) na capital indiana. Segundo a Folha de S.Paulo, o texto condena tarifas e barreiras comerciais unilaterais, critica sanções econômicas impostas sem aval do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) e determina aprofundar o uso de moedas locais no comércio e nos investimentos entre os países do bloco.
O grupo reúne hoje 11 países: os fundadores Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, mais Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Juntos, respondem por 39% da economia mundial, 48,5% da população do planeta e 23% do comércio global, segundo a Agência Brasil. A declaração chega em meio à escalada de tarifas aplicadas pelos Estados Unidos desde que Donald Trump assumiu a Presidência, em 2025. Sem citar o país nem o presidente, o texto expressa "graves preocupações" com a proliferação de medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais, que os líderes consideram incompatíveis com as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio) e ameaças às cadeias globais de suprimentos. "O sistema multilateral de comércio chegou a uma encruzilhada crítica", afirma o documento, que também critica medidas protecionistas apresentadas com justificativas ambientais e defende mudanças na governança do FMI (Fundo Monetário Internacional), do Banco Mundial e da própria OMC.
Para o Brasil, a cúpula teve um contorno particular. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o único líder dos fundadores ausente: em plena campanha pela reeleição, preferiu a agenda eleitoral e enviou o chanceler Mauro Vieira a Nova Délhi, segundo o Poder360. O país figura entre os principais alvos do tarifaço americano, ao lado de China e Índia. O Brasil também saiu do encontro com dois registros próprios no documento: a proposta, feita com a África do Sul, de criar um painel internacional sobre desigualdade, e a reiteração, por China e Rússia, do apoio a um papel maior do Brasil e da Índia no Conselho de Segurança da ONU, assento permanente que Brasília pleiteia há décadas. O texto não cita especificamente a entrada do Brasil como membro permanente.
Guerra no Golfo testa a unidade do bloco
A cúpula colocou no mesmo palco países de lados opostos na guerra do Oriente Médio. Segundo a Agência Brasil, o conflito começou em fevereiro deste ano, quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã sob o argumento de que o país desenvolvia armas nucleares, acusação negada por Teerã. Em retaliação, o Irã atacou os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, membros do bloco alinhados a Washington. Estiveram em Nova Délhi o anfitrião, primeiro-ministro indiano Narendra Modi, e os presidentes Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia), Cyril Ramaphosa (África do Sul) e Masoud Pezeshkian (Irã). O parágrafo 28 da declaração não cita os países envolvidos nem usa a palavra guerra, recurso comum em documentos diplomáticos para facilitar o consenso, observa a reportagem:
"Expressamos profunda preocupação com a contínua escalada das tensões no Oriente Médio/Ásia Ocidental e, recordando nossas respectivas posições nacionais, conclamamos ao exercício da máxima contenção, bem como à abstenção de ações que possam agravar ainda mais a situação."
Moedas locais, sem moeda única
Na pauta financeira, o avanço foi cauteloso. A declaração aponta soluções práticas para mecanismos eficientes de pagamentos transfronteiriços em moedas locais e reforça a integração dos sistemas nacionais de pagamentos, mas não menciona a criação de uma moeda única do Brics nem a substituição do dólar, segundo a Agência Brasil e a Folha. Os líderes pediram que o NDB (Novo Banco de Desenvolvimento), o banco do grupo, amplie sua capacidade de mobilizar recursos, diversifique as fontes de financiamento e aumente o crédito em moedas locais para projetos de infraestrutura.
A cúpula marcou os 20 anos do grupo, segundo a Folha. Também teve simbolismo diplomático: foi a primeira visita do presidente chinês à Índia em 7 anos, com comitiva de 400 pessoas, em um esforço de reaproximação entre vizinhos que disputam a fronteira desde o confronto de 2020, que deixou 24 mortos, lembra o Poder360. Intitulada formalmente "Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade", a declaração tem 35 páginas e 140 parágrafos. Em 2025, a presidência rotativa foi do Brasil, que sediou a cúpula de julho no Rio de Janeiro.