O partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu a eleição estadual da Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, neste domingo (6), com 43,8% dos votos, mais que o dobro de seu resultado anterior. Segundo a BBC, é a primeira vitória eleitoral expressiva de um partido nacionalista de direita radical com chance real de governar em nível regional desde a queda do Terceiro Reich, em 1945. O partido, porém, ficou por pouco de obter maioria absoluta e, para formar governo, precisaria de aliados que os demais partidos descartam ser, segundo o G1.
Em Berlim, o chanceler Friedrich Merz, da União Democrata-Cristã (CDU), disse nesta segunda-feira (7) estar "profundamente chocado". A CDU despencou para 17,2%, cerca de 20 pontos menos que no pleito anterior no estado, e o chanceler classificou o resultado como "a mais dura derrota eleitoral da CDU em décadas". Merz admitiu que sua própria impopularidade foi tema constante da campanha, defendeu o rumo das reformas do governo e descartou sair: "Desistir não é uma opção para mim". Ele disse ainda que conversará nos próximos dias com o parceiro de coalizão, o Partido Social-Democrata (SPD).
"Desde ontem, não apenas a Saxônia-Anhalt mudou, mas toda a Alemanha. Esse resultado eleitoral terá consequências." (Friedrich Merz, chanceler alemão)
O que isso significa para o Brasil
Para o Brasil, o resultado chega pela via econômica e diplomática. A Alemanha é a maior economia da União Europeia (UE), e a UE está entre os maiores parceiros comerciais do país. A análise da BBC argumenta que uma Alemanha enfraquecida e distraída por crises internas reduz a capacidade de ação do bloco justamente quando a Europa lida com a guerra na Ucrânia, as tarifas do governo de Donald Trump e a competição econômica com a China. Um continente voltado para dentro tem menos margem para as pautas externas que interessam a Brasília, do comércio ao clima, num ano em que o Brasil elege presidente em outubro com a relação com os Estados Unidos já em debate na campanha.
Os interesses em jogo
O eco internacional veio rápido. Trump publicou em sua rede social, a Truth Social, a pesquisa de boca de urna da Saxônia-Anhalt. Para a BBC, a mensagem anti-imigração e de "Alemanha para Alemães" da AfD ressoa com o movimento MAGA (Make America Great Again), e o partido adota a mesma estratégia: atacar a imprensa tradicional, questionar a neutralidade dos juízes e prometer "tornar a Alemanha grande novamente". Da Rússia, o executivo Kirill Dmitriev, presidente do Fundo Russo de Investimento Direto, chamou o resultado de "histórico", o governo alemão de "desacreditado" e comparou Merz ao ex-primeiro-ministro britânico Keir Starmer. O interesse de Moscou é direto: a Alemanha é hoje o maior doador individual de ajuda à Ucrânia, enquanto a AfD defende interromper o envio de ajuda militar a Kiev, suspender as sanções e voltar a comprar energia russa, muito mais barata.
Em casa, a votação expõe a divisão leste-oeste. A Saxônia-Anhalt tem apenas 1,7 milhão dos 59 milhões de eleitores alemães, é o estado mais pobre do país e mantém forte a "Ostalgie", a nostalgia da antiga Alemanha Oriental comunista, apesar de a Alemanha ter gasto entre 2,3 e 3 trilhões de euros na integração da região desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, segundo a BBC. As autoridades alemãs classificam a AfD como antidemocrática e a facção estadual do partido como radical de extrema direita, mas a legenda já aparece nas pesquisas como a maior do país. Em Bruxelas, o temor é que a vitória marque os próximos 12 meses, com eleições em países-chave da UE como França, Itália, Espanha e Polônia.
A definição de um governo estadual segue em aberto. O candidato principal da AfD, Ulrich Siegmund, disse que o partido tem um "mandato claro para governar", e simpatizantes comemoraram sob o lema "tudo é possível". Sem maioria absoluta, no entanto, a AfD precisaria de parceiros, e os demais partidos descartam apoiá-la, segundo o G1. Os próximos marcos são as eleições de Berlim e do Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental em duas semanas; depois delas, Merz prometeu uma avaliação interna da CDU e da coalizão.