Trinta e um parlamentares dos Estados Unidos enviaram na quinta-feira (24) uma carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, na qual acusam o governo de Donald Trump de tentar interferir na eleição presidencial do Brasil. O documento, obtido pelo Metrópoles, foi assinado por 30 deputados federais e pelo senador Bernie Sanders, grupo que o G1 descreve como parlamentares do Partido Democrata. Os signatários exigem que o Departamento de Estado assuma publicamente o compromisso de respeitar o processo eleitoral brasileiro e reconhecer o resultado certificado das urnas, com respostas aos questionamentos até 1º de outubro.
Na avaliação dos congressistas, as medidas adotadas por Washington desde 2025 configuram uma campanha de pressão diplomática, econômica e política contra instituições brasileiras. A carta cita as duas rodadas de tarifas sobre produtos brasileiros, as sanções aplicadas com base na Lei Global Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e outras autoridades do país, e a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. Os signatários destacam que a designação das facções foi anunciada dois dias depois de uma reunião de maio entre Trump e o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, na qual, segundo o documento, ele teria pedido aos americanos exatamente essa classificação.
"As ações do governo Trump constituíram uma violação extraordinária da soberania nacional do Brasil e uma tentativa flagrante de pressionar as autoridades brasileiras em relação a um processo judicial em andamento", diz a carta, na versão divulgada pelo G1.
Alertas em Brasília
Para o Brasil, a carta chega em momento sensível, dez dias antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, e dois dias depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursar na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e afirmar, sem citar os EUA, que o país não permitirá "ingerência externa em processos eleitorais". O tema já era tratado como risco institucional em Brasília. Segundo reportagem do R7, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) encaminhou no fim de agosto um relatório ao Palácio do Planalto, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) alertando para o "nível de criticidade" de uma possível interferência americana nas eleições.
O documento da Abin, divulgado pelo jornal Folha de S.Paulo, ajuda a mapear os interesses em jogo. Segundo o relatório, os objetivos do segundo governo Trump na América Latina incluem reduzir a influência de potências rivais dos EUA e negar a elas o acesso a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas, em favor de um controle direto ou indireto por Washington ou pelo capital privado americano. Para os congressistas, a pressão tem um alvo específico: as autoridades brasileiras envolvidas no processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no STF, a corte suprema do país. O governo Lula, por sua vez, havia apresentado propostas de cooperação bilateral contra o crime organizado transnacional, ignoradas, segundo a carta, na decisão sobre o PCC e o CV.
Escalada dos vistos
A tensão entre os dois países também passou por episódios de vistos. Segundo a carta, o Itamaraty negou entrada a dois funcionários do Departamento de Estado, Riley M. Barnes e Samuel Samson, depois que os parlamentares receberam informações de que a delegação pretendia colocar em dúvida a integridade do sistema eletrônico de votação. Em retaliação, Washington revogou o visto da embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Viotti. O documento ainda menciona declarações da então porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, sobre o "poderio militar" americano, que, na leitura dos signatários, alimentam temores de sanções financeiras extraterritoriais ou até de intervenção militar.
Ao todo, os parlamentares fazem sete pedidos a Rubio, entre eles explicar os critérios usados nas sanções contra Moraes, justificar a classificação do PCC e do CV como terroristas e comprometer-se a reconhecer o vencedor da eleição de 2026. Até este sábado (26), o Departamento de Estado não havia respondido publicamente. O primeiro turno vai às urnas no dia 4 de outubro, com Lula e Flávio Bolsonaro como principais adversários na disputa.