O governo chines afirmou nesta semana que tomara 'todas as medidas necessarias' para proteger seus interesses depois que os Estados Unidos anunciaram uma nova rodada de sancoes contra o Ira, batizada pelo secretario do Tesouro americano, Scott Bessent, de 'Operacao Economic Outcast'. Em coletiva regular em Pequim, o porta-voz do Ministerio das Relacoes Exteriores da China, Lin Jian, disse que a cooperacao entre China e Ira sempre foi conduzida dentro do arcabouco do direito internacional e nao deve ser interferida ou interrompida, segundo reportagens do The Guardian e da Al Jazeera.
A resposta chinesa marca uma nova escalada nas tensoes comerciais e diplomaticas entre Washington e Pequim, poucas semanas antes de uma cupula prevista entre o presidente americano Donald Trump e o lider chines Xi Jinping, marcada para 24 de setembro na Casa Branca. A China e a maior compradora do petroleo iraniano, adquirindo hoje cerca de 80% das exportacoes do pais, segundo o The Guardian. O comercio bilateral entre os dois paises somou US$ 9,96 bilhoes em 2025, sem contar mais US$ 31,2 bilhoes em remessas de petroleo iraniano, conforme dados citados pela Al Jazeera com base na Comissao de Revisao Economica e de Seguranca EUA-China.
O episodio ilustra como conflitos distantes reverberam sobre cadeias de comercio das quais o Brasil tambem depende. Assim como a China busca diversificar fornecedores de energia e minerais criticos em meio a atritos com Washington, o Brasil tem sido cortejado tanto por americanos quanto por chineses em negociacoes sobre tarifas e terras raras, ativo que o governo brasileiro classificou como estrategico na disputa entre as duas potencias. Uma escalada prolongada entre EUA e China pelo Ira pode redesenhar fluxos de commodities e afetar precos de energia que chegam ao mercado brasileiro.
Os interesses em jogo
Bessent anunciou sancoes iniciais contra 60 individuos, entidades e embarcacoes por suposto envolvimento no comercio com o Ira, mas nenhuma instituicao financeira chinesa constava da lista, o que analistas interpretam como sinal de cautela de Washington. Questionado sobre o motivo de nao declarar sancoes imediatas contra a China, Bessent respondeu que nao queria explodir o sistema financeiro global, segundo o The Guardian. Ainda assim, ele afirmou que nenhuma entidade esta acima do alcance das sancoes americanas e que qualquer instituicao que facilite lavagem de dinheiro em nome do Ira sera removida do sistema do dolar.
Para Pequim, o calculo e duplo: de um lado, evitar uma ruptura com Washington as vesperas do encontro entre Trump e Xi; de outro, nao abrir mao de um fornecedor de petroleo a precos descontados nem ceder a pressao em um momento de disputa mais ampla por minerais criticos e tarifas. Trita Parsi, do Quincy Institute for Responsible Statecraft, em Washington, disse a Al Jazeera que e improvavel que os EUA avancem contra entidades chinesas poucas semanas antes de Xi chegar a Washington. Ja Wang Wen, decano do Instituto Chongyang de Estudos Financeiros da Universidade Renmin da China, afirmou a mesma reportagem que Pequim inevitavelmente tomara contramedidas caso os EUA avancem, mas que a intensidade da resposta chinesa dependera da gravidade das acoes americanas.
O Ira, por sua vez, mantem a postura de desafio. O ministro da Economia iraniano, Ali Madanizadeh, disse na televisao estatal que a defesa do pais nao e mais tao defensiva e que os inimigos devem esperar um ataque, segundo o The Guardian. O conflito tambem tem desdobramentos no Estreito de Ormuz, rota estrategica para o transporte de petroleo, onde Ira e Oma discutem um acordo para gestao conjunta da via maritima. Um navio petroleiro foi atingido por um projetil nao identificado na embocadura do estreito nesta semana, segundo o centro britanico de operacoes comerciais maritimas, que informou nao haver vitimas nem danos ambientais aparentes.