O governo de Donald Trump já deportou quase 25 mil pessoas para países que não são os seus de origem, segundo reportagem do Fantástico, programa jornalístico da TV Globo, exibida no domingo (6). Os destinos incluem democracias, como Costa Rica e Libéria, e regimes instáveis ou autoritários, como El Salvador, Essuatíni, República Democrática do Congo, República Centro-Africana e Guiné Equatorial. Todos recebem milhões de dólares de Washington para aceitar os imigrantes.
A maioria dessas pessoas havia pedido asilo nos Estados Unidos alegando risco de violência ou de perseguição política em seus países de origem. Como a Justiça americana costuma impedir que elas sejam enviadas de volta para casa, o governo passou a remetê-las para terceiros países por meio de contratos remunerados. Segundo dados do projeto Third Country Deportation Watch compilados pela Folha de S.Paulo, só a Guiné Equatorial, que já abriga dezenas de imigrantes de outros países africanos, recebeu seis voos com ao menos 53 imigrantes de outras nacionalidades desde o ano passado. As agências Reuters e Al Jazeera noticiaram em agosto que venezuelanos e cubanos estavam entre os enviados à Libéria, que esperava receber até 1.200 pessoas.
Para o Brasil, a política chegou em agosto e expôs um vácuo de informação. O Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, afirmou não ter recebido notificação prévia em nenhum dos casos de brasileiros enviados a países africanos. No caso do pernambucano Pietro Graza de Lima, de 57 anos, a pasta só soube no dia 25 de agosto que ele estava na Guiné Equatorial e, desde então, pede autorização para prestar assistência consular. Na quarta-feira (2), o embaixador do Brasil no país africano foi informado de que ele "está em boa situação de saúde, hospedado em hotel determinado pelas autoridades" e que "uma visita será facilitada nos próximos dias". O Brasil recebe quase semanalmente voos com dezenas de deportados brasileiros dos Estados Unidos, mas, nesses envios a terceiros países, o canal de aviso não funcionou.
Um voo de 16 horas até a Libéria
A mineira Paola Santos, de 21 anos, trabalhava com limpeza de obras em Massachusetts havia cinco anos quando foi detida pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês), a polícia de imigração americana. Ela entrou no país de forma irregular pela fronteira com o México e diz que tinha permissão de trabalho. Depois de uma blitz, ficou presa por um ano e três meses, em cadeias de Massachusetts, Connecticut, Vermont, Texas e Louisiana, até embarcar, no fim de agosto, em um avião com destino desconhecido, com pés, mãos e cintura algemados. Só descobriu onde estava depois de 16 horas de voo, quando ouviu da imigração local: "Bem-vindos, vocês estão na Libéria". Ao questionar o destino, ouviu de um agente: "Se você não descer por vontade própria, a gente vai ter que fazer uso de força". O Itamaraty disse que não recebeu notificação sobre o caso dela, "nem da parte dos estados supostamente envolvidos na deportação, nem da parte da nacional ou sua família".
Pietro foi colocado em um voo rumo à Libéria em 20 de agosto, junto com cubanos e camaroneses, depois que um juiz americano negou um pedido de restrição temporária contra sua expulsão, segundo a Folha. Ao pousar, ele e um pequeno grupo de imigrantes se recusaram a descer. "Nós ficamos com hematomas no corpo, nos jogaram praticamente na pista do avião", relatou. Um representante da Libéria disse que o país não aceitaria o grupo; o avião decolou de novo e pousou na Guiné Equatorial, onde os imigrantes foram retirados e levados a um hotel semiabandonado que, segundo a Associated Press, só recebe suspeitos de contaminação por ebola e deportados da imigração americana. No país, relata o Fantástico, eles ficam vigiados e sem liberdade de circulação, e não há previsão de retorno.
"Cerca de 10, 20 policiais encapuzados, com armas pesadas, estavam nos esperando. Esse foi o pior momento da minha vida. A gente olhou um para o outro e falou: 'Não adianta resistir'."
O terceiro caso tenta evitar a África
Um terceiro brasileiro tenta escapar do mesmo destino. Alex Pereira Alves, que mora em Los Angeles, pediu asilo nos EUA há dez anos por ser homossexual e se sentir perseguido no Brasil. Convocado em abril, recebeu um aparelho de monitoramento eletrônico; em 12 de agosto, foi preso cinco minutos depois de se apresentar à imigração, segundo sua advogada, Jane Oak. Detido em Adelanto, na Califórnia, ele pede para ser deportado ao Brasil, e não à Guiné Equatorial. "Ele acha que, dez anos depois, a sociedade brasileira mudou e se sentiria mais seguro", disse a advogada. O impasse resume os interesses em jogo: Washington quer remover pessoas que sua Justiça não permite devolver aos países de origem, os governos que as recebem querem os recursos dos contratos, e o Brasil quer, por ora, ser avisado e poder visitar seus nacionais.