A Organização das Nações Unidas (ONU) abre nesta terça-feira (22), em Nova York, a 81ª Assembleia Geral com um ponto inusual na agenda: a própria sobrevivência. Sob cortes de verba e ataques públicos, o secretário-geral, António Guterres, vai pedir aos 193 Estados-membros que reafirmem o compromisso com a instituição fundada em 1945. "O objetivo é termos uma ONU que reflita o mundo de 2026, e não o de 1945", resumiu o porta-voz Stéphane Dujarric. O debate geral começa às 10h (horário local) e segue por seis dias.
O cenário é descrito pelo g1 como o pior momento institucional da entidade em 80 anos. Os Estados Unidos, que respondem por mais de 20% do financiamento, cortaram repasses e programas inteiros desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, e o presidente acusa a organização de ser enviesada e ineficaz. Israel, Rússia e os próprios EUA ignoraram resoluções do Conselho de Segurança e até mandados de prisão expedidos por órgãos judiciais da ONU. Em entrevista à agência Associated Press, Guterres culpou a "enorme divisão geopolítica" e disse que a sobrevivência da entidade depende de as grandes potências respeitarem o direito internacional.
Para o Brasil, a abertura é vitrine e teste ao mesmo tempo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva será o primeiro chefe de Estado a discursar, depois de Guterres e da presidente da Assembleia, a alemã Annalena Baerbock, seguido por Trump, sob a tradição consolidada em 1955 que coloca o Brasil à frente do país anfitrião. É a décima participação do petista na abertura como presidente. O momento é delicado: o governo negocia com Washington o tarifaço que já levou Lula a dizer, nos EUA, que Trump "age como imperador", e nas eleições presidenciais de outubro Trump apoia o principal adversário do petista, o senador Flávio Bolsonaro. Auxiliares ouvidos pelo g1 dizem que a estratégia é apresentar Lula como contraponto ao americano em democracia, comércio e paz, uma imagem que a campanha quer capitalizar junto ao eleitor indeciso.
Discurso sem nomes, com recados direcionados
O texto final ainda era ajustado na segunda-feira (21), mas as linhas principais são conhecidas. Lula deve falar da erosão do multilateralismo e de seus efeitos na segurança, no clima, na saúde, no comércio e na soberania, e dedicar trechos à defesa da soberania brasileira contra o que avalia como tentativas de interferência externa nas eleições, com mensagens, sem citação de nomes, a EUA, Argentina e Israel, segundo interlocutores do g1. Também é esperada menção à captura de Nicolás Maduro, na Venezuela, no início do ano, tratada por Lula como ameaça à soberania na América Latina, além da cobrança de reforma do Conselho de Segurança, cujos cinco membros permanentes têm poder de veto. A tradição da primeira fala tem origem prosaica: "quando ninguém queria falar primeiro, o Brasil sempre se oferecia para falar primeiro", contou à rádio NPR, em 2010, o chefe de protocolo da ONU, Desmond Parker.
Os interesses em torno do plenário explicam o clima. Os EUA querem encolher a organização; o analista Richard Gowan defendeu na revista Foreign Affairs que ela se restrinja ao básico, como mediação de conflitos e ajuda humanitária. Do outro lado, a União Europeia, o Canadá e o Quênia assinaram com o Brasil, no fim de semana, um manifesto contra o abandono do multilateralismo. O Planalto lê o Escudo das Américas, iniciativa de segurança dos EUA na região, como tentativa de afastar a China do hemisfério, segundo o Poder360. E o Brasil renova a aspiração a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança, ao lado de Japão, Alemanha e África do Sul.
Apelo de Guterres e uma sucessão no horizonte
Antes dos líderes, Guterres fará dezenas de reuniões bilaterais para pedir apoio e ouvir propostas sobre como manter a organização de pé. À Associated Press, resumiu o risco:
"Muitos países dizem: 'Se as superpotências podem violar a lei, por que nós não podemos?' Eles fazem o que querem, sabendo que haverá impunidade total. A ONU deve ser uma referência de valores e princípios para todo o mundo, pois alguém precisa afirmar que a lei da força não pode prevalecer sobre a força da lei."
A viagem de Lula é enxuta por causa da campanha: ele retorna ao Brasil na própria terça-feira, leva quatro ministros, entre eles o chanceler Mauro Vieira, e ao menos 73 nomes autorizados no Diário Oficial da União (DOU), segundo o Poder360, sem os presidentes da Câmara e do Senado e sem governadores, ao contrário de anos anteriores. Lula disse à CNN Internacional que o multilateralismo é "o que funcionou até agora para manter o comércio do mundo em uma certa harmonia", e a assembleia ainda escolherá, neste ano, o sucessor de Guterres.