Uma avalanche seguida de enchente repentina na fronteira entre o Nepal e o Tibete, na quarta-feira (26), deixou quase 600 mortos e cerca de 2 mil desaparecidos, segundo o balanço mais recente divulgado pela BBC News Mundo. A versão inicial do mesmo levantamento, republicada pela Folha de S.Paulo, falava em centenas de mortos e 1,4 mil desaparecidos, o que indica que os números seguem em atualização. O desastre atingiu a região do Himalaia, incluindo a passagem de fronteira de Gyirong, e imagens de pessoas correndo para escapar circularam pelo mundo.
Quase 4,5 mil pessoas trabalham nos resgates, em horas consideradas críticas para a recuperação dos corpos. A área de Devighat, no Nepal, é a mais atingida: a enchente destruiu casas e estradas inteiras e deixou centenas de desabrigados. Segundo a Cruz Vermelha, cerca de 93 mil pessoas podem ter sido afetadas. Por se tratar de um destino turístico popular, há estrangeiros entre as vítimas fatais, e muitos corpos foram arrastados para distritos distantes rio abaixo, o que deve dificultar a identificação.
As reportagens consultadas não mencionam brasileiros entre as vítimas. Para o Brasil, a relevância do episódio é indireta, mas concreta. A tragédia recoloca na agenda internacional o tema do degelo de geleiras e do monitoramento de lagos glaciais, assunto debatido na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em Belém em 2025. Também tem eco doméstico num país que convive com o debate sobre falhas de monitoramento desde os rompimentos de barragens em Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019.
Colapso de geleira é a causa mais provável
Inicialmente, a avalanche foi atribuída a um terremoto de magnitude 4,4 registrado pelos sensores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês). A própria agência revisou a explicação em seguida: a hipótese mais provável é o colapso de uma geleira antes do tremor. Segundo o USGS, o rompimento de grande parte da geleira teria causado o terremoto, invadido o vale arrastando gelo, rochas e sedimentos e bloqueado o canal do rio Lhende Khola. Quando o bloqueio cedeu, formou-se uma enorme tromba d'água que atingiu as áreas povoadas. A hipótese é consistente com imagens de satélite que mostram o colapso, mas ainda precisa ser confirmada por estudos científicos mais avançados.
Geólogos ouvidos pelo The New York Times, em texto republicado pela Folha, acreditam que as enchentes foram desencadeadas por um deslizamento de terra em grande altitude combinado ao colapso glacial, que liberou enormes volumes de água. Eran Hood, professor de ciências ambientais da Universidade do Alasca, estuda há anos as inundações causadas pelo rompimento de lagos glaciais na Geleira Mendenhall, que afetam a cidade de Juneau todos os anos. Segundo ele e outros especialistas em resposta a desastres, os sistemas de alerta existentes se concentram em pontos específicos, como o nível de lagos glaciais sujeitos a transbordamento. Prever um colapso repentino como o do Himalaia exigiria monitoramento intensivo, com grande uso de recursos, em áreas muito extensas.
Interesses em jogo
Para o Nepal, que depende do turismo de montanha como fonte importante de renda, a tragédia pressiona o governo a reforçar a infraestrutura de alerta em uma região que abrange algumas das montanhas mais altas do mundo, geleiras e terrenos instáveis. Do lado tibetano, o desastre ocorre em área controlada pela China, onde as geleiras alimentam grandes rios asiáticos, o que torna qualquer mudança no regime de degelo um tema de interesse regional. As autoridades seguem em alerta para novos deslizamentos, e as equipes de resgate continuam a busca por sobreviventes na área devastada.