Os Estados Unidos preparam uma nova rodada de sanções contra pessoas, empresas e instituições no Brasil ligadas ao PCC (Primeiro Comando da Capital) e ao Comando Vermelho (CV), e a medida pode ser aplicada nas próximas semanas, segundo reportagem da Folha de S.Paulo publicada neste sábado (19). As investigações americanas que sustentam a ação teriam sido intensas, relatam autoridades que acompanham o tema e falaram ao jornal sob condição de anonimato.
O trabalho vem sendo feito há meses com apoio do Departamento do Tesouro, do Departamento de Justiça e do FBI (Federal Bureau of Investigation, a polícia federal americana). Investigadores rastrearam o caminho do dinheiro das duas facções em território americano e, depois de mapear origens e destinos, cruzaram dados para identificar relações com residentes no Brasil e suas conexões locais. As sanções podem alcançar indivíduos, empresas ou instituições, inclusive com atuação política, cujos integrantes tenham alguma conexão com os grupos.
O que significa para o Brasil
A ameaça chega em momento de atrito aberto entre os dois governos. Na terça-feira (15), a Casa Branca enviou ao Congresso americano uma determinação presidencial sobre os principais países de trânsito ou produção de drogas, divulgada na quarta (16). No texto, a gestão de Donald Trump afirma que o Brasil "falhou em confrontar" as duas facções, que "transformaram o Brasil em um hub para os fluxos globais de cocaína", e cobra "medidas agressivas" para derrotá-las. O Ministério da Justiça e Segurança Pública rebateu em nota, dizendo que Washington ignora iniciativas brasileiras e a cooperação existente entre os dois países, e afirmou que seguirá atuando "de forma soberana e coordenada". Nos bastidores, segundo a Folha, prevalece a leitura de que a pressão americana tem caráter político-eleitoral.
Os interesses em jogo se cruzam e divergem. Washington enquadra o tema na sua estratégia regional contra o crime organizado: em 29 de maio, o Departamento de Estado classificou as duas facções como terroristas globais especialmente designados (SDGT), medida apresentada como parte do plano de "desmantelar cartéis e organizações criminosas em nossa região" e garantir a segurança do povo americano. Segundo a Folha, PCC e CV também foram enquadradas no primeiro semestre como organizações terroristas estrangeiras (FTO). O documento enviado ao Congresso compara o Brasil desfavoravelmente a outros governos da região, aos quais atribui medidas contra o tráfico e o narcoterrorismo. No campo doméstico, a classificação teve estímulo da oposição: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu a Trump, em encontro de 26 de maio em Washington, que as facções entrassem na lista americana de organizações terroristas, segundo a CartaCapital.
Se confirmada, a nova rodada estenderia a pressão para indivíduos, empresas e instituições no Brasil conectadas às facções, e não apenas as organizações em si. O texto da Casa Branca carrega, porém, uma ressalva: o Brasil não aparece na lista principal de países classificados pelos EUA como grandes pontos de trânsito ou produção de drogas, e o próprio documento diz que a presença nela não significa, necessariamente, uma avaliação negativa dos esforços de um governo. A pressão chega em ano eleitoral: o Brasil elege presidente, governadores e Congresso em outubro.