A Venezuela, um dos cinco países que fundaram a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) em 1960, avalia deixar o cartel que ajudou a criar, segundo pessoas familiarizadas com o assunto ouvidas pela Bloomberg. A possibilidade tem sido discutida em Caracas em conversas com autoridades dos Estados Unidos, e nenhuma decisão final foi tomada. Se confirmada, a saída faria do país o segundo a abandonar o grupo em questão de meses, depois que os Emirados Árabes Unidos anunciaram sua retirada, há cerca de quatro meses.
O movimento reflete o realinhamento político em Caracas desde que o presidente americano, Donald Trump, derrubou Nicolás Maduro, capturado por forças americanas em 3 de janeiro, e Washington assumiu o controle das vendas de petróleo do país. Com a presidente interina Delcy Rodríguez no poder, os dois governos negociam uma participação significativa dos Estados Unidos nos campos petrolíferos venezuelanos; segundo algumas das fontes, um dos modelos em discussão prevê o arrendamento de campos por até 100 anos. Algumas autoridades americanas vislumbram uma potência petrolífera construída sobre uma aliança entre Washington e Caracas, capaz de reduzir de forma expressiva a influência da Opep, cartel liderado pela Arábia Saudita.
O que significa para o Brasil
O domínio da Opep e de seus parceiros já vinha diminuindo com a ascensão de concorrentes como os produtores de xisto dos Estados Unidos, o Brasil e a Guiana, aponta a reportagem da Bloomberg publicada pela Folha. Uma fragmentação maior do grupo elevaria o risco de os integrantes passarem a competir entre si por clientes e participação de mercado, numa possível repetição da breve guerra de preços do início da pandemia, em 2020. Mesmo sem uma disputa aberta, o mercado perderia um gestor global da oferta que intervém quando surgem excedentes, deixando os preços mais sujeitos a quedas. Para o Brasil, que ampliou sua produção e suas exportações de petróleo nos últimos anos, um cenário de preços mais baixos e mais voláteis afetaria diretamente a receita do setor.
O impacto imediato de uma eventual saída venezuelana sobre a oferta global, porém, tende a ser pequeno, segundo operadores do mercado. O país produziu 1,16 milhão de barris por dia em julho, conforme levantamento da Bloomberg, menos da metade do volume de uma década atrás, embora a produção tenha voltado a crescer neste ano. Devido ao declínio de sua indústria, Caracas hoje não está sujeita às cotas de produção do cartel. Uma das fontes afirmou que libertar o país de cotas futuras ajudaria a maximizar sua produção no longo prazo e permitiria a Washington executar seus planos para o setor sem restrições do grupo.
Ainda assim, o simbolismo pesa. Além da saída anunciada pelos Emirados Árabes Unidos, o Iraque manifestou insatisfação com suas cotas de produção, o que alimenta dúvidas sobre a coesão do grupo.
"A própria coesão e a credibilidade da Opep podem estar em jogo", afirmou Ali Al Riyami, ex-diretor-geral de comercialização de petróleo e gás do Ministério da Energia de Omã, país que integra a aliança mais ampla, a Opep+. "A questão crucial é saber se isso marca o início de uma onda mais ampla de saídas."
A Venezuela foi considerada o país mais influente na criação da Opep, graças aos esforços diplomáticos de seu então ministro do Petróleo, Juan Pablo Pérez Alfonzo, e também teve papel central no surgimento da Opep+, aliança formada em 2016 com produtores externos, incluindo a Rússia. O cartel atravessou do embargo árabe de petróleo dos anos 1970 aos cortes de produção que estabilizaram os preços durante a pandemia de 2020. Uma eventual saída de Caracas também seria uma vitória política para Trump, crítico de longa data da organização, e poderia abrir caminho para que petroleiras americanas e de outros países participem da reconstrução da indústria venezuelana, ampliando o excedente global de petróleo projetado para os próximos anos pela Agência Internacional de Energia (AIE).