O governo dos Estados Unidos abriu uma janela temporária de importação de até 300 mil toneladas de carne bovina pelos próximos 90 dias, isenta da tarifa extra que incide sobre o produto fora de cota. A medida, anunciada em 21 de agosto pelo presidente Donald Trump, tenta ampliar a oferta interna e conter preços: segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o rebanho bovino americano está no menor nível em 75 anos, e a carne fresca chegou a custar US$ 9,64 por libra (cerca de US$ 21,25 o quilo) no varejo em abril, alta de 13% sobre um ano antes.
Em evento na Casa Branca, conforme registrou o portal BeefPoint, Trump confirmou que Brasil e Argentina devem liderar o fornecimento do volume. "Pode haver outros países, mas agora são principalmente Argentina e Brasil. Estamos fazendo isso de forma muito limitada porque nossos pecuaristas conseguem atender ao mercado", declarou o presidente americano. O interesse de Washington é claro: baratear a carne moída usada em hambúrgueres enquanto os pecuaristas locais, pressionados por secas e pela redução do rebanho, recebem incentivos para reconstituir a produção.
Para o Brasil, a abertura cria uma oportunidade imediata. O analista Fernando Iglesias, da consultoria Safras & Mercado, estima que o país capture entre 30% e 40% do volume adicional, o equivalente a 90 mil a 120 mil toneladas nos próximos 90 dias. A posição é favorável porque o Brasil já é o maior fornecedor de carne bovina dos EUA, à frente de Austrália, Canadá, México e Nova Zelândia. De janeiro a agosto, os americanos compraram 269,1 mil toneladas de carne brasileira, com receita de US$ 1,74 bilhão, volume 28,7% maior que no mesmo período de 2025.
Como funciona a cota atual
Hoje, o Brasil disputa com outros fornecedores uma cota compartilhada de 52,4 mil toneladas sem tarifa extra, que segundo Iglesias foi totalmente usada em apenas 15 dias. Depois disso, a carne brasileira segue entrando no mercado americano, mas paga um adicional de 26,4%. A nova janela elimina essa cobrança por 90 dias e melhora as condições de acesso, na avaliação da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), que aguarda a regulamentação para dimensionar o impacto sobre as exportações.
Nem todo o espaço será dividido de forma automática entre os países. Segundo Iglesias, os concorrentes mais diretos do Brasil nesse volume são o Paraguai e países da América Central, já que a Argentina conta com cotas próprias para o mercado americano. Cada exportador terá de conquistar espaço, e o preço oferecido aos compradores dos EUA será decisivo.
O desafio do preço
Há ainda um ponto de atenção para os frigoríficos. A demanda americana está concentrada nos trimmings, aparas magras retiradas no processamento da carcaça e usadas na produção de carne moída. Como o produto tem baixo valor agregado, as empresas ainda calculam se o preço pago pelos americanos compensa os custos de exportação e a alternativa de vender o mesmo animal em outros mercados. Trump afirmou que a medida poderia reduzir o preço da carne ao consumidor em até 25%, mas especialistas citados pela Forbes avaliam como improvável um impacto significativo sobre a oferta e os preços.