Tiros e explosões foram ouvidos em várias áreas de Niamei, capital do Níger, na madrugada deste sábado (29), inclusive nas proximidades do palácio presidencial e do Aeroporto Internacional Diori Hamani. A informação veio de duas testemunhas ouvidas pela agência Reuters e foi repercutida pelo G1 e pela Al Jazeera. Até o momento não há confirmação oficial sobre a motivação dos disparos nem registro de vítimas, e o governo militar do país ainda não se pronunciou.
"Houve trocas de tiros intensos. Os disparos continuam acontecendo ao redor do palácio", disse uma das testemunhas à Reuters.
O episódio ocorre em um país governado por militares desde julho de 2023, quando um golpe de Estado derrubou o presidente eleito Mohamed Bazoum. A junta liderada pelo general Abdourahamane Tchiani rompeu com os aliados ocidentais tradicionais, como a França, ex-potência colonial, e os Estados Unidos, e passou a cooperar com a Rússia em matéria de segurança. Na mesma direção, o Níger se uniu a Mali e Burkina Faso, também sob regimes militares, em uma aliança política e de segurança, e os três países se distanciaram da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), bloco regional que pressionava pela volta da ordem constitucional.
O que isso significa para o Brasil
O interesse brasileiro direto no Níger é limitado, mas a instabilidade no Sahel toca duas agendas acompanhadas pelo Itamaraty: a segurança do Atlântico Sul e a política para a África, que o governo Lula recolocou entre as prioridades da diplomacia. O avanço de grupos armados e o enfraquecimento dos blocos regionais dificultam a cooperação com a costa ocidental africana em temas como tráfico e segurança marítima. Uma escalada em Niamei também pesaria nos debates de organismos multilaterais dos quais o Brasil participa, a começar pela Organização das Nações Unidas (ONU).
A violência de fundo não é nova. Segundo o G1, Níger, Mali e Burkina Faso seguem enfrentando ataques de grupos jihadistas ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, apesar da promessa das juntas de melhorar a segurança. Em março, pelo menos 44 civis foram mortos no sudoeste do Níger, e em janeiro um ataque atingiu as proximidades do próprio aeroporto internacional de Niamei.
Sem manifestação oficial, a pergunta central continua aberta: se os disparos desta madrugada foram um ataque de grupos armados, um movimento interno nas Forças Armadas ou um incidente isolado. Golpes e tentativas de golpe se sucederam no Sahel desde 2020, e tiros perto de palácios presidenciais já antecederam trocas de poder na região, o que recomenda cautela antes de qualquer conclusão.