O vice-ministro da Indústria da China, Xin Guobin, anunciou na quarta-feira (26) um novo pacote de medidas para conter a guerra de preços que pressiona as margens das montadoras do país, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. O anúncio foi feito numa entrevista sobre o início do 15º Plano Quinquenal, o ciclo de planejamento econômico do Partido Comunista. A disputa chegou ao ponto em que empresas vendem carros próximos do custo de produção e cobrem o rombo atrasando o pagamento de fornecedores, um ciclo que Pequim tenta interromper há dois anos.
A palavra usada pelo governo para descrever o fenômeno é neijuan (内卷), traduzida literalmente como "involução": a corrida em que todos gastam mais para ficar no mesmo lugar. O termo entrou no vocabulário oficial em julho de 2024 e passou a orientar a atuação da cúpula econômica do partido sobre os governos locais, apontados como a origem do problema. Foram as províncias que ergueram a capacidade automotiva chinesa, disputando fábricas com terreno barato, crédito subsidiado e isenções fiscais, até formar um parque industrial maior do que o mercado interno consegue absorver.
O desfecho dessa disputa interessa ao Brasil por um motivo direto: o excesso de capacidade pressiona as exportações chinesas, já que é no exterior que as montadoras tentam escoar o que o mercado doméstico não compra. Marcas chinesas ganharam espaço no mercado brasileiro de carros elétricos e híbridos nos últimos anos e passaram a produzir no país, movimento recente mapeado pela Gazeta do Povo. Uma consolidação do setor na China, com menos players e preços mais sustentáveis, tenderia a reorganizar a concorrência também no segmento brasileiro de elétricos.
Quem quer o quê
O pacote expõe um mapa de interesses divergentes dentro da própria China. O governo central quer uma indústria com margens saudáveis e uma cadeia de fornecedores solvente; as províncias defendem os empregos e a arrecadação gerados pelas fábricas que ajudaram a atrair; as montadoras, presas na corrida, veem os lucros evaporar mesmo com vendas em alta; e os fornecedores acabam financiando o sistema ao receber com atraso.
O anúncio de Xin Guobin é descrito pela Folha como mais um capítulo de um esforço de dois anos, sinal de que as medidas anteriores não foram suficientes para disciplinar o setor. Ao vincular o tema ao início do 15º Plano Quinquenal, o vice-ministro indica que a regulação da concorrência industrial entra na lista de prioridades econômicas do novo ciclo. Até o momento, os detalhes do pacote foram noticiados apenas pela Folha de S.Paulo.