O Departamento de Estado, a chancelaria dos Estados Unidos, atravessa a maior remodelação de seu quadro em décadas. Desde o início do segundo mandato de Donald Trump, em 20 de janeiro de 2025, cerca de 3 mil dos 14 mil diplomatas de carreira pediram demissão, se aposentaram ou foram forçados a sair em 18 meses, segundo cálculos da American Foreign Service Association (AFSA), entidade que representa esses profissionais. Analistas descrevem a política externa do período como "transacional": guerras tarifárias e tentativas de influenciar eleições e assuntos internos de outros países em busca de ganhos imediatos para os EUA.
O efeito aparece nas embaixadas. Dos 113 nomes indicados por Trump até 10 de agosto, apenas 20 eram diplomatas de carreira, menos de 18%, o menor patamar da história recente do país. Desde Gerald Ford (1974-1977), incluindo o primeiro mandato de Trump, a proporção ficava em torno de 60% ou mais. Indicações políticas sempre existiram em Washington. Segundo dados da AFSA, porém, 97 dos 196 postos de embaixador seguem sem titular confirmado pelo Senado, parte por processos em curso, parte por falta de indicado; no mesmo ponto do governo Joe Biden, eram 55. O porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, fala em "reestruturação histórica" e numa diplomacia "alinhada ao 'America First'" ("os EUA em primeiro lugar") que seja "mais eficiente, ágil e assertiva". Para a AFSA, o serviço está sendo politizado, e afastar profissionais que serviram governos democratas e republicanos, diz a associação, "no longo prazo acaba prejudicando o país".
O Brasil virou um dos casos mais visíveis dessa disputa. A embaixada americana em Brasília está sem titular desde janeiro de 2025, com a saída de Elizabeth Bagley, indicada por Biden. Só em junho a Casa Branca escolheu Daniel Perez, de 38 anos, republicano, advogado e filho de imigrantes cubanos que preside desde 2024 a Câmara dos Representantes da Flórida, onde é deputado desde 2017. Aliado de Trump e adepto do slogan MAGA, ele elogiou em janeiro a operação militar americana que resultou na captura de Nicolás Maduro, na Venezuela. O Senado dos EUA aprovou o nome no início de agosto, mas Perez ainda espera o agrément, o aval do governo brasileiro para assumir o posto. O processo emperra porque, na avaliação de Brasília, os americanos queimaram etapas: anunciaram o nome e o submeteram ao Senado antes de pedir formalmente o consentimento, que pela praxe diplomática vem primeiro.
A escalada de agosto
A crise ganhou tom aberto em 4 de agosto, quando o Departamento de Estado alterou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, atribuindo a medida à demora brasileira em conceder o agrément. O Planalto repudiou a decisão e afirmou que as justificativas "são falsas". A nota presidencial lembra ainda que, pelo artigo 4 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, o processo de agrément é confidencial e o nome indicado só deveria vir a público depois de concedida a anuência.
"A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo."
Sobre o protocolo, o texto é direto: "Não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para a concessão do agrément. O pedido norte-americano ainda se encontra em análise." A nota denuncia também um "interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente". O contexto agrava o atrito: a medida contra Viotti veio dez dias depois de o Itamaraty negar vistos a dois funcionários do Departamento de Estado, Riley Barnes e Samuel Samson, que segundo reportagem do Washington Post citada pela CNN Brasil planejavam questionar a confiabilidade das urnas eletrônicas brasileiras. A nota recorda que seguem vigentes sanções americanas a autoridades brasileiras, entre elas ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), sob a alegação, rejeitada por Brasília, de perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro, e que Lula pediu pessoalmente a Trump, em visita a Washington em maio, o levantamento dessas medidas. Diplomatas brasileiros ouvidos pela CNN descreveram a ação contra a embaixadora como "chantagem" para acelerar o aval a Perez.
O que cada lado quer
Os interesses são legíveis. Washington quer um aliado político sentado em Brasília o quanto antes e trata o atalho protocolar como eficiência da doutrina "America First", com missões sem embaixador conduzidas por "experientes encarregados de negócios", na definição de Pigott. Brasília quer a praxe respeitada, do agrément à não interferência na eleição de 2026, e mantém o pedido em análise. Viotti classificou o momento como uma "fase incomum" das relações bilaterais, segundo a Folha de S.Paulo. O alerta de longo prazo vem de dentro dos próprios EUA: a AFSA sustenta que o afastamento em larga escala de diplomatas com décadas de experiência vai custar caro ao país com o tempo, enquanto o Departamento de Estado defende que está montando uma "equipe diplomática de elite".