O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) do Irã afirmou neste sábado (5) ter atacado um porta-aviões e um destróier dos Estados Unidos com mísseis balísticos. Até a divulgação da informação, as forças americanas não haviam confirmado o ataque, informou a CNN Brasil. A alegação foi feita horas depois de o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) publicar imagens de bombardeios contra três navios-tanque iranianos, um deles próximo à Ilha de Kharg, terminal por onde passa cerca de 90% do petróleo bruto exportado pelo país.
Segundo o Centcom, os ataques aos petroleiros foram retaliação ao lançamento de mísseis balísticos do CGRI contra dois navios da Marinha americana. "Se o Irã atirar contra navios dos EUA, destruiremos (e afundaremos) seus navios-tanque de petróleo", escreveu o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, na rede social X. O almirante Brad Cooper, chefe do Comando Central, disse que a mensagem ao CGRI é clara: quem atirar em dois navios americanos pagará "um custo econômico ainda maior", com três petroleiros destruídos em resposta. A agência iraniana semioficial Tasnim informou que quatro mísseis americanos atingiram um navio-tanque na área do ancoradouro de Kharg, sem vítimas, e que a tripulação era evacuada. O Centcom afirmou que nenhum militar americano ficou ferido, e a Reuters não conseguiu verificar de forma independente onde e quando o vídeo divulgado foi gravado.
Para o Brasil, o novo capítulo da guerra alimenta um debate que já estava aberto em Brasília. Diante das tensões internacionais e dos atritos com Washington, inclusive a designação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelos americanos, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reservou cerca de R$ 148 bilhões ao Ministério da Defesa na proposta de orçamento de 2027, enviada nesta semana ao Congresso, a sexta maior dotação do projeto, segundo o g1. Em junho, Lula disse que ampliaria os gastos com defesa porque "está cheio de maluco no mundo" e que não queria "ser pego de surpresa"; em julho, citou o interesse de EUA, Rússia e China em terras raras e minerais críticos ao defender forças armadas "preparadas". A verba contempla o programa do submarino nuclear brasileiro e o protótipo do reator Labgene, em Iperó (SP). Em agosto, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, admitiu que o país não teria condições de enfrentar militarmente os Estados Unidos e brincou que, num cenário de invasão, "abriria o portão".
Como a guerra começou
O conflito teve início em 28 de fevereiro, quando o presidente americano, Donald Trump, anunciou um ataque "de grande escala" ao Irã, com o objetivo declarado de eliminar as "ameaças iminentes" ligadas ao programa nuclear do país. Os bombardeios conjuntos dos EUA e de Israel causaram milhares de mortes e mataram o então líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, segundo a imprensa e autoridades iranianas. Em resposta, o Irã atacou alvos em todo o Oriente Médio e fechou de forma efetiva o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. O acúmulo militar americano na região, semanas antes do início da guerra, foi o maior desde a invasão do Iraque, em 2003.
Um cessar-fogo frágil, firmado em junho, não resistiu. Em julho, Washington revogou a licença que permitia ao Irã vender petróleo e lançou uma nova ofensiva; desde então, os dois países trocam golpes com regularidade. O Irã atacou instalações americanas no Kuwait, no Bahrein e na Jordânia, e os EUA mantiveram uma sequência de 13 noites seguidas de bombardeios, que em 24 de julho atingiu o quartel-general da Marinha do CGRI em Zibakenar, no norte do país, deixando ao menos quatro mortos. Segundo a CNN, a escalada da última semana ameaça aprofundar um conflito que interrompe o fornecimento global de energia e já gera oposição da maioria dos americanos às vésperas das eleições para o Congresso, em novembro.
O que cada lado quer
Washington quer o fim do programa nuclear iraniano e a liberdade de navegação no Golfo, com uma estratégia que combina sanções e bombardeios à infraestrutura de exportação de petróleo. O Irã usa o controle do Estreito de Ormuz como principal trunfo: analistas ouvidos pela CNN avaliam que os ataques a embarcações servem para reforçar a posição de Teerã nas negociações de um acordo de paz de longo prazo. O Quartel-General Central Khatam al-Anbiya, principal comando militar conjunto iraniano, ameaçou uma "resposta devastadora" e disse que Teerã não permitirá interferência americana na administração do estreito. O Financial Times, reproduzido pelo Valor Econômico, informou que o Irã enfrenta problemas econômicos e avisa que novos ataques serão "mais dolorosos". No meio do fogo estão países do Golfo que abrigam bases americanas, como Kuwait, Bahrein e Jordânia, já atingidos por mísseis e drones iranianos, além do Catar, que atribuiu a Teerã ataques a navios comerciais. O Reino Unido passou a desaconselhar viagens não essenciais ao Kuwait e ao Bahrein.