O candidato à Presidência da República pelo PSD, Ronaldo Caiado, foi entrevistado nesta terça-feira (25) pela Globo, em sabatina conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro. A entrevista integra uma série com os seis candidatos mais bem colocados na pesquisa de intenção de voto divulgada pelo instituto Quaest em 14 de agosto, e foi a primeira a ser exibida após o Jornal Nacional, e não mais durante o telejornal.
Segundo a BBC News Brasil, Caiado defendeu o envio ao Congresso Nacional de um projeto de anistia para todos os condenados por crimes relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023, quando prédios dos Três Poderes foram depredados em Brasília. O candidato disse que a medida busca pacificar o país e encerrar o que chamou de processo de revanche eterna. Para justificar a proposta, ele comparou a situação à anulação das condenações do presidente Lula na Operação Lava Jato pelo Supremo Tribunal Federal (STF), afirmando que a Corte também teria concedido anistia ao petista.
Checagem aponta erro na comparação com Lula
A equipe de checagem do Fato ou Fake, do G1, classificou essa declaração como falsa. Em março de 2021, o STF anulou quatro processos contra Lula por entender que a 13ª Vara Federal de Curitiba, então sob responsabilidade do juiz Sergio Moro, não era o foro competente para julgá-lo. O relator, ministro Edson Fachin, não avaliou o mérito das acusações nem declarou Lula inocente: a decisão tratou de vício processual, restabelecendo os direitos políticos do petista. Isso é juridicamente distinto de anistia, que segundo o glossário do Senado é o perdão concedido por lei a quem cometeu um ato sujeito a punição, e que é atribuição exclusiva do Congresso Nacional, não do Judiciário.
Ainda de acordo com a BBC, Caiado defendeu a criação de uma força policial multinacional formada por países da América do Sul, batizada de Sulpol em seu programa de governo e inspirada na Europol europeia. Segundo o candidato, agentes de outros países sul-americanos poderiam atuar em território brasileiro em casos de contrabando, lavagem de dinheiro, tráfico de armas e drogas, e agentes brasileiros teriam a mesma liberdade nos países vizinhos. O Brasil é a Disneylândia do narcotráfico, disse Caiado, segundo a reportagem. Questionado se autorizaria ações dos Estados Unidos em solo brasileiro, algo diretamente ligado ao anúncio recente do governo americano de medidas contra o narcotráfico na América Latina, ele respondeu que não via necessidade, defendendo que os dez países sul-americanos deveriam resolver o problema entre si.
Sobre segurança pública, Caiado afirmou que 60 milhões de brasileiros estão em condição de hoje escravizados pelo narcotráfico. O G1 classificou a declaração como fato, com ressalvas: uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública com o Datafolha, divulgada em maio, estima que 68 milhões de brasileiros (41% da população) percebem a presença de grupos criminosos ligados a tráfico ou milícias em seu bairro, mas apenas 12% dos entrevistados disseram ter sido obrigados a contratar serviços oferecidos por criminosos. Já a afirmação de que 38 milhões de eleitores não votaram na última eleição presidencial foi classificada como imprecisa: os dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram 32,7 milhões de abstenções no primeiro turno de 2022 e 32,1 milhões no segundo.
Caiado também afirmou que 80% da população brasileira está tomada por dívidas, declaração confirmada pelo G1 com base em levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC): em julho, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas, o maior nível da série histórica da entidade. Na entrevista, o candidato disse ainda que pretende revisitar a reforma tributária desenhada pelo economista Bernard Appy, propondo ajustes para reduzir a carga sobre autônomos e microempreendedores, e afirmou que fará uma reforma da Previdência, sem detalhar se pretende alterar a idade mínima para aposentadoria. A série de sabatinas da Globo segue nos próximos dias com Renan Santos (Missão), Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Augusto Cury (Avante).