Na manhã desta quinta-feira (27), no prédio alto e cilíndrico de concreto que abriga a sede da Caixa Econômica Federal em Brasília, os executivos do banco tinham um recado para entregar junto com os números do segundo trimestre: a expansão do crédito imobiliário vai continuar. A declaração, reportada pelo UOL, vem depois de a carteira de financiamento habitacional da estatal superar a marca de R$ 1 trilhão, em um trimestre de lucro líquido recorrente de R$ 3,9 bilhões.
Os resultados foram divulgados na quarta-feira (26) e comentados nesta quinta pela vice-presidente de Habitação da Caixa, Inês Magalhães. Segundo a Agência Brasil, o lucro cresceu 5,9% na comparação com o mesmo período de 2025 e 12,4% ante o primeiro trimestre deste ano. No acumulado do semestre, porém, o lucro recorrente somou R$ 7,4 bilhões, queda de 17,6% em 12 meses.
Imobiliário responde por quase 70% da carteira
O crédito imobiliário segue como o principal negócio do banco. O saldo da carteira atingiu R$ 1,005 trilhão em junho, alta de 15% em um ano, e representa 69,4% da carteira total, que chegou a R$ 1,448 trilhão, crescimento de 11,9% em 12 meses. De abril a junho, as contratações de financiamento habitacional somaram R$ 137,6 bilhões, avanço de 29,3% na comparação anual, e a Caixa manteve a liderança do mercado, com participação de cerca de 68%.
O crescimento veio acompanhado de sinais de alerta. A inadimplência acima de 90 dias subiu de 2,66% para 3,64% em um ano, puxada pelo agronegócio, onde o índice saltou de 7,02% para 20,74%. Na carteira imobiliária, o atraso ficou em 1,45%, bem abaixo das demais modalidades. Diante do risco maior, o banco elevou as provisões para perdas de crédito a R$ 6,97 bilhões no trimestre, alta de 97,6% em um ano, e o retorno sobre o patrimônio líquido recuou 2,7 pontos percentuais, para 9,16%.
O desafio do teto de 12%
Ao comentar os números, Inês Magalhães reconheceu que o novo limite de juros do crédito habitacional pressiona o banco. Pelo novo modelo do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo), anunciado no fim de 2025 e implementado de forma gradual até a vigência plena em janeiro de 2027, a taxa dos financiamentos enquadrados no SFH (Sistema Financeiro de Habitação) não deve ultrapassar 12% ao ano até janeiro. O problema, disse a executiva, é a Selic em 14% ao ano: o banco paga a taxa básica para captar dinheiro no mercado e empresta a 12%.
"Nós estamos num momento muito difícil, o teto de 12% é desafiador", afirmou a executiva, segundo a Folha de S.Paulo. "Agora, temos que lembrar que o SBPE tem origem na poupança, e ele é um subsídio."
O novo modelo busca reduzir a dependência histórica da caderneta de poupança, que vem perdendo recursos para aplicações mais rentáveis, como CDBs e Tesouro Direto, e autoriza os bancos a captar diretamente no mercado de capitais, com instrumentos como as LCIs (Letras de Crédito Imobiliário). De volta ao prédio de concreto em Brasília, a mensagem deixada nesta quinta-feira é direta: mesmo com juros altos e provisões em alta, a estatal que financia a maioria dos imóveis do país pretende seguir expandindo o crédito habitacional.