Câmeras de segurança registraram do início ao fim a perseguição que terminou no linchamento e na morte de Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos, em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, na noite de 11 de agosto. As gravações, divulgadas pelo Fantástico, da TV Globo, no domingo (23), foram obtidas pela Folha de S.Paulo e indicam ao menos sete pessoas envolvidas ou presentes em diferentes momentos da sequência. Cláudio foi morto sob a suspeita de ter roubado uma bicicleta que, segundo a investigação da Polícia Civil, pertencia à irmã dele.
A cronologia montada a partir das imagens mostra que Cláudio deixou a vila onde morava em Botafogo, também na zona sul, às 22h26, e chegou às 22h54 a uma loja de conveniência na esquina das ruas Barata Ribeiro e Belford Roxo. Segundo o relato de um funcionário aos investigadores, ele entrou para pedir um cigarro, mas desistiu ao saber que precisaria pagar, e ficou do lado de fora, encostado na parede. Às 23h21 chegou o segurança Davi Santos Machado, que questionou se a bicicleta era dele. Às 23h23, o funcionário da loja prendeu o veículo com um cadeado junto a galões de água, enquanto Davi o fotografava. Às 23h33, os dois chegaram a apertar as mãos, mas, segundo a investigação, Davi teria então chamado outro segurança pelo celular. Às 23h37, Jorge Luiz Ricardo Dias atravessou a Barata Ribeiro carregando a bicicleta, acompanhado de Davi e Cláudio, e saiu pedalando.
As agressões ocorreram na rua Felipe de Oliveira. Segundo a CNN Brasil, dois homens com mochilas de entrega de aplicativo chegaram de bicicleta e um terceiro apareceu com um pedaço de madeira. O ataque durou quase nove minutos: a análise das gravações feita pela Folha contabilizou 63 golpes com pedaços de madeira, enquanto a contagem da polícia citada pela CNN aponta pelo menos 30 pauladas, além de socos e chutes. Cláudio não reagiu. Depois que ele caiu desacordado, os agressores mexeram nos bolsos da vítima e um deles fotografou a cena. O grupo levou a bicicleta e deixou Cláudio na calçada sem pedir socorro.
O Corpo de Bombeiros foi acionado e levou o ciclista ao Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, mas ele não resistiu. Segundo informações repassadas à família, a morte ocorreu por traumatismo craniano e hemorragia interna.
O andamento da investigação
O caso é investigado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro. Dias depois do crime, Davi Santos Machado foi flagrado por câmeras de segurança pedalando a bicicleta da vítima até a 12ª DP, em Copacabana, onde prestou depoimento e negou participação nas agressões. Na quinta-feira (20), ele se apresentou novamente, desta vez na 53ª DP, em Mesquita, e admitiu envolvimento no caso, segundo a CNN Brasil. Além de Davi e Jorge Luiz, a polícia identificou como participantes o segurança Felipe Eduardo dos Santos e homens que trabalhavam como entregadores de aplicativo na região.
Quatro suspeitos foram presos, e a polícia ainda tenta localizar um quinto envolvido, segundo o G1. O caso reacendeu o debate sobre linchamentos no Brasil, que se repetem em grandes cidades e muitas vezes partem de acusações falsas. Em análise publicada nesta sexta-feira (28), o Brasil de Fato relacionou o episódio à circulação de discursos de ódio e de "justiça com as próprias mãos". Para a polícia, as imagens que percorrem quase todo o crime, da abordagem na loja de conveniência aos nove minutos de agressão, são agora a principal peça para responsabilizar cada um dos envolvidos.