A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu desculpas ao povo brasileiro na sessão plenária desta terça-feira (15). O plenário extraordinário foi convocado para examinar o relatório que aponta a relação entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Segundo o G1, a ministra disse estar em estado de "profunda consternação e tristeza".
A fala veio depois de o ministro Flávio Dino pedir vista, recurso que suspende o julgamento para dar mais tempo ao magistrado. Cármen Lúcia abriu a manifestação pedindo licença ao colega. "Eu não tenho o hábito de antecipar voto quando há um pedido de vista", afirmou. Em seguida, atribuiu o desgaste dos últimos dias à própria Corte, que, segundo ela, "provocou um mal estar cívico em todas as cidadãs e cidadãos brasileiros nesses últimos dias". Segundo a Folha de S.Paulo, foi a única manifestação da ministra na sessão antes do voto na questão de ordem.
A ministra disse que queria ter ajudado a acalmar a crise entre os colegas e que não conseguiu.
"Eu peço desculpa ao povo brasileiro por talvez ter esperado de mim uma postura diferente. Mas acho que todos nós aqui queríamos a mesma coisa, que era tentar resolver, e as questões não foram resolvidas e foram crescendo demais. Portanto, estou pedindo desculpas ao presidente do Supremo, a todos os colegas, mas ao povo brasileiro, porque realmente queria ter sido melhor e poder ter ajudado a acalmar as coisas e não consegui"
Crise que começou com o caso Master
A crise na Corte teve início no começo de setembro, com o levantamento do sigilo de relatórios da Polícia Federal produzidos nas apurações sobre fraudes financeiras no Banco Master. Um dos documentos identificou 52 mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes entre dezembro de 2023 e novembro de 2025, data em que o empresário foi preso pela primeira vez. O relatório também registrou encontros presenciais entre os dois e um contrato de R$ 130 milhões entre o banco e o escritório da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes.
Na questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes, que dominou a sessão, o placar ficou em 4 a 3 pela separação entre a análise da conduta de Moraes e a da condução do relatório do caso Master pelo ministro André Mendonça. O presidente da Corte e relator da sessão, Edson Fachin, votou pela separação, acompanhado por André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia. Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e o próprio Moraes defenderam o julgamento conjunto. Dino, que havia votado nessa linha, mudou o voto para o pedido de vista, o que suspendeu o julgamento.
O que vem a seguir
Pelas regras internas do STF, fixadas em decisão de dezembro de 2022, Dino tem até 90 dias para devolver os autos, prazo contado da publicação da ata da sessão, informou a BBC News Brasil. Se o prazo correr sem devolução, o julgamento é liberado automaticamente. A Corte mantém marcada para 23 de setembro a sessão sobre as acuações de Moraes contra Mendonça.