O Carter Center voltou atrás e decidiu enviar uma missão de observação às eleições de outubro no Brasil, cerca de 20 dias depois de comunicar ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que não participaria do pleito. A informação foi publicada nesta segunda-feira (24) pela Folha de S.Paulo. A organização é a única dos Estados Unidos convidada pela corte eleitoral a analisar as eleições deste ano.
De acordo com pessoas que acompanham o tema ouvidas pela Folha, a equipe de especialistas do centro deve concentrar o trabalho no sistema eletrônico de votação e em educação eleitoral. Ao final do processo, os observadores produzirão um relatório sobre essas duas áreas.
A desistência inicial foi comunicada à corte no início de agosto. Na época, a entidade alegou dificuldades financeiras provocadas pelo corte de US$ 9 bilhões na ajuda externa americana, proposto pelo presidente Donald Trump e aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos no ano passado, que resultou no fechamento da USAID, a agência de desenvolvimento internacional do país. Segundo a CartaCapital, as perdas do Carter Center foram estimadas em US$ 11 milhões, agravadas pelo redirecionamento de recursos de doadores europeus para a missão da União Europeia que acompanhará o pleito.
A aposta do TSE em observadores internacionais
O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, tem defendido a interlocutores a ampliação do monitoramento internacional como forma de proteger o processo eleitoral de possíveis questionamentos aos resultados e às urnas eletrônicas. Em 17 de agosto, ele recebeu em Brasília representantes de dezenas de embaixadas estrangeiras e afirmou que as missões de observação "avaliarão a integridade, a eficácia operacional e o cumprimento estrito das normas eleitorais brasileiras". Na ocasião, o Carter Center não foi citado entre as organizações confirmadas justamente porque a corte já havia sido informada da impossibilidade de participação da entidade.
"Neste pleito, tal qual vem sendo feito desde as eleições de 2018, as missões internacionais de observação poderão acompanhar oficialmente diferentes etapas do processo eleitoral, incluindo cerimônias públicas de auditoria, preparação das urnas eletrônicas, votação, apuração e totalização de votos", disse Kassio no encontro com os diplomatas.
Além do Carter Center, devem atuar como observadoras a Organização dos Estados Americanos (OEA), a União Europeia, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e a União Interamericana de Organismos Eleitorais, segundo a CartaCapital. A Fundação Internacional para Sistemas Eleitorais, outra organização americana, também informou que não participará do pleito deste ano. O vaivém ocorre em meio ao atrito diplomático entre Brasília e Washington: no mês passado, o Itamaraty negou vistos a dois funcionários do governo dos Estados Unidos sob a justificativa de que eles viriam interferir nas eleições brasileiras, segundo a revista.
Fundado em 1982 pelo ex-presidente americano Jimmy Carter (1924-2024) e por sua esposa, Rosalynn Carter (1927-2023), o Carter Center já organizou mais de cem missões de observação eleitoral em cerca de 40 países. No Brasil, acompanhou a eleição de 2022, vencida por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Jair Bolsonaro (PL), com uma equipe de quatro especialistas ao longo de dois meses. No relatório final daquele pleito, a entidade atestou a lisura do processo e a confiabilidade das urnas eletrônicas, ao mesmo tempo em que recomendou ao TSE reforçar o combate à desinformação.