O consultor político argentino Fernando Cerimedo, conhecido por admitir o uso de robôs em campanhas eleitorais da direita radical na América Latina, disse à ex-companheira, a advogada Nadia Beller, que "lutaria" pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições de 2026. O relato foi dado por Nadia em entrevista por videoconferência à Folha de S.Paulo nesta terça-feira (25).
Cerimedo, amigo do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), foi preso no dia 18 de agosto na Bolívia, acusado de ter ordenado o assassinato de Nadia, que está grávida. Ele nega envolvimento no crime. Segundo a reportagem, a advogada foi baleada em frente a um hotel em Santa Cruz de la Sierra na noite de segunda-feira (17), em uma emboscada que envolveu dois homens vestidos como entregadores. Ela passou por cirurgia, sobreviveu e já recebeu alta.
Questionada pela Folha sobre as relações de Cerimedo com a família Bolsonaro, Nadia contou que perguntou diretamente ao consultor se Flávio tinha chance de vencer a eleição presidencial. "Ele me disse que estava difícil, mas que eles iriam lutar. Esse foi o único comentário que ele fez para mim", relatou.
"Foi o que entendi na hora, que eles iam tentar. Isso foi logo que a candidatura foi anunciada. Eu perguntei: 'E ele tem alguma chance?' Ele respondeu: 'Hummm, vamos lutar'", disse Nadia à Folha, ao ser perguntada se entendeu a fala de Cerimedo como uma promessa de ajuda à campanha.
A Folha encaminhou três perguntas à campanha de Flávio Bolsonaro: se o senador conhece ou já falou com Cerimedo, se sabe de alguma conversa entre o consultor e Eduardo Bolsonaro sobre apoio à candidatura presidencial deste ano, e se tem conhecimento de que Cerimedo trabalhou para a campanha de Jair Bolsonaro em 2022. Até a publicação da reportagem, não havia resposta.
Histórico com o bolsonarismo
Segundo o Diário do Centro do Mundo, Cerimedo ficou conhecido no Brasil por liderar ataques às urnas eletrônicas após a derrota de Jair Bolsonaro em 2022, quando apresentou em uma transmissão ao vivo um dossiê alegando falhas em determinados modelos de urnas, alegações posteriormente desmentidas pela Justiça Eleitoral. Ele foi indiciado pela Polícia Federal em 2024 por suspeita de organização criminosa e golpe de Estado, mas não constou na denúncia final apresentada pela Procuradoria-Geral da República por falta de provas suficientes sobre seu conhecimento do esquema.
O caso segue sob apuração das autoridades bolivianas, enquanto a campanha de Flávio Bolsonaro ainda não respondeu publicamente às perguntas da reportagem sobre os laços com o consultor argentino.