A Selic está em 14% ao ano, e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse nesta segunda-feira (31) que derrubá-la é o principal desafio econômico do país. Em conversa com investidores no Macro Day 26, evento do banco BTG Pactual, ele prometeu uma agenda fiscal de sete frentes para levar os juros ao que chamou de patamar "civilizado". A taxa é o ponto de partida do crédito que a família paga no parcelamento da geladeira e a empresa paga para financiar a produção.
Segundo a Folha de S.Paulo, as sete frentes incluem cumprir as metas de resultado primário, reforçar o arcabouço fiscal, controlar o gasto obrigatório e revisar benefícios tributários. Durigan prometeu "superávits primários crescentes e recorrentes" a partir de 2027. O superávit de 0,1% do PIB previsto para o ano que vem deve ser o patamar mínimo dos anos seguintes, disse o ministro ao Exame, em referência a um eventual novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Por que as contas públicas seguram os juros
Entenda: a Selic é a taxa básica que o Banco Central define para conter a inflação, e ela serve de referência para todo o crédito do país, do rotativo do cartão ao financiamento do agronegócio. Superávit primário é quando o governo arrecada mais do que gasta, sem contar os juros da dívida. Quando o mercado confia que as contas estão controladas, a pressão inflacionária cai e o Banco Central ganha espaço para cortar a taxa.
A urgência vem do tamanho da dívida: ela chegou a 82,5% do PIB em julho, o maior nível em mais de cinco anos, segundo o G1. É o mesmo que dizer que o governo deve mais de quatro quintos de tudo o que o país produz em um ano. Durigan defendeu manter o arcabouço, que limita o crescimento dos gastos a, no máximo, 2,5% acima da inflação, e aprimorá-lo em vez de trocá-lo; o orçamento de 2027, enviado ao Congresso nesta segunda, prevê o gasto obrigatório crescendo menos que o limite geral.
"É o custo do dinheiro no país. Nós temos que fazer avançar uma agenda olhando para essa milha final, que é como que a gente traz os juros... com patamar civilizado."
A frase foi dita no painel "Cenário Econômico", em conversa com o economista-chefe do BTG Pactual, Mansueto Almeida. O público era a Faria Lima, como o mercado financeiro brasileiro é chamado por causa da avenida paulistana. Na avaliação de Durigan, o dinheiro caro prejudica o Tesouro Nacional, as famílias, as empresas e os agricultores.
Onde o ajuste vai morder
O alvo principal é o que o orçamento paga por obrigação, sem votação anual. Neste ano, o governo cortou 10% dos benefícios tributários não constitucionais, o que deve render cerca de R$ 20 bilhões, segundo o Exame. "Se neste ano estamos fazendo 10% de revisão, vamos fazer mais 10% ou 5% que seja no ano que vem", afirmou o ministro, que defendeu novos cortes lineares a cada exercício.
Segundo a Folha, Durigan afirmou que o governo quer chegar ao resultado mantendo as políticas sociais e ganhando eficiência na concessão e no acompanhamento dos benefícios. No mesmo evento, André Esteves, do BTG Pactual, disse que o Brasil tem uma "oportunidade de ouro" para chegar a juros civilizados e que a Selic poderia estar em 7%, segundo o Valor Econômico, menos da metade dos 14% atuais. O NeoFeed classificou as sete frentes como as prioridades de uma eventual próxima gestão, a um mês das eleições de outubro.