O contrato para que o fundo Havengate, ligado ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, financiasse o filme "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro, foi assinado 11 dias depois do primeiro repasse milionário feito pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ao fundo. A informação consta de um laudo pericial elaborado pela defesa da produtora Go Up Entertainment e apresentado ao Tribunal de Justiça de São Paulo, segundo reportagem do ICL Notícias publicada nesta quinta-feira (27).
De acordo com o laudo, o contrato entre o fundo, sediado nos Estados Unidos, e a produtora foi formalizado em 24 de fevereiro de 2025. Documentos publicados originalmente pelo site The Intercept Brasil mostram que, em 13 de fevereiro de 2025, a Entre Investimentos e Participações transferiu US$ 2 milhões ao Havengate por determinação de Vorcaro, a pedido do senador Flávio Bolsonaro, conforme o ICL. Um comprovante bancário SWIFT registra a operação. No dia seguinte, o empresário Fabiano Zettel encaminhou o comprovante a Vorcaro com a mensagem "Filme!". Segundo o ICL, o laudo não aponta nenhum documento anterior ao contrato que vinculasse essa primeira remessa ao projeto.
Cronograma de quase US$ 24 milhões
A perícia indica que todo o dinheiro usado na produção de "Dark Horse", US$ 13,39 milhões (cerca de R$ 69 milhões), saiu do Havengate. Foram US$ 3,7 milhões em despesas no Brasil e US$ 9,66 milhões nos Estados Unidos. Pelos documentos, Vorcaro havia se comprometido com um cronograma de repasses de quase US$ 24 milhões: duas parcelas de US$ 2 milhões em janeiro de 2025 e pagamentos mensais de US$ 1,66 milhão entre março de 2025 e janeiro de 2026. Ao menos US$ 10,6 milhões foram efetivamente pagos ao fundo, com atraso em parte das seis primeiras parcelas.
As conversas obtidas pelo Intercept mostram que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje candidato do PL à Presidência, passou a cobrar Vorcaro com mais frequência quando a crise do Banco Master se agravou. Em 15 de novembro de 2025, um dia antes da prisão do banqueiro pela Polícia Federal, o senador escreveu: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!" Os diálogos indicam que Vorcaro era procurado para bancar o filme desde ao menos dezembro de 2024.
Em maio, Flávio Bolsonaro afirmou que divulgaria em até 30 dias o contrato e a prestação de contas do filme. O prazo não foi cumprido. Segundo a Revista Fórum, integrantes da família Bolsonaro passaram a apresentar o próprio laudo produzido pela defesa da produtora como comprovação pública da regularidade da operação.
O que vem a seguir
O financiamento de "Dark Horse" é alvo de inquérito aberto a pedido da Procuradoria-Geral da República para apurar suspeita de corrupção envolvendo Flávio, Eduardo Bolsonaro e Vorcaro. Nesta semana, o ministro Flávio Dino, do STF, autorizou a PF a acessar material apreendido na investigação sobre a produtora. Nesta sexta-feira (28), Vorcaro deve depor à PF por videoconferência no inquérito que investiga servidores do Banco Central suspeitos de receber pagamentos para favorecer o Master. A sessão prevista para quinta-feira foi adiada por problemas técnicos.