O economista José Sergio Gabrielli, coordenador-geral do programa de governo da campanha do presidente Lula (PT), defende que o Tesouro Nacional intervenha no mercado de títulos públicos para reduzir os juros de longo prazo. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele afirmou ainda que a campanha discute elevar novamente o Imposto de Renda cobrado dos "super-ricos" em um eventual novo mandato, além das mudanças que entraram em vigor neste ano.
Segundo Gabrielli, que foi presidente da Petrobras, uma das medidas possíveis seria a recompra de títulos públicos pelo Tesouro, a exemplo da anunciada na semana passada pelo governo dos Estados Unidos para conter a alta dos juros. No Brasil, esse tipo de atuação é adotado para estabilizar o mercado em momentos de disfunção. Em março, o Tesouro comprou quase R$ 30 bilhões em títulos diante da perspectiva de que a Selic permanecesse elevada por causa da guerra no Irã. Segundo a Folha, foi a maior intervenção do órgão no mercado de juros desde 2020, quando foi declarada a pandemia de Covid-19.
Gabrielli atribui o aumento da dívida pública aos encargos dos juros. O setor privado, em sentido oposto, defende restrição fiscal para conter as despesas do governo. O economista criticou ainda um editorial da Folha publicado na edição de 16 de agosto, que cobrava medidas urgentes de redução das despesas federais para evitar uma crise fiscal e a continuidade dos juros altos. Para o coordenador do programa de Lula, o texto colocou o Brasil "à beira do caos".
Nova alta do imposto sobre super-ricos
As mudanças no Imposto de Renda citadas por Gabrielli estão em vigor desde janeiro, por força da lei sancionada por Lula em novembro de 2025, que isentou quem ganha até R$ 5.000 por mês e criou uma tributação mínima sobre altas rendas, de até 10% para quem recebe acima de R$ 600 mil por ano. À Folha, o economista disse que a campanha discute elevar novamente essa cobrança em um próximo mandato.
Apesar de coordenar o programa de governo, Gabrielli não tem sido escalado para falar em nome da campanha de Lula desde uma entrevista à Folha em junho, segundo o jornal. Suas críticas ao arcabouço fiscal provocaram o que ficou conhecido como "efeito Gabrielli" e levaram o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a atuar para reduzir os danos no mercado. Lula disputa um novo mandato nas eleições de outubro.