A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) virou tema central da disputa presidencial de 2026. Segundo apuração do G1, a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, decidiu ampliar os ataques ao ministro Alexandre de Moraes no discurso e na propaganda. Do outro lado, parte da equipe de reeleição do presidente Lula (PT) defende que ele marque distância do ministro. As duas campanhas reavaliam suas estratégias depois de uma semana de decisões conflitantes dentro da Corte.
No entorno de Flávio, a avaliação é de que quanto mais tempo a crise permanecer no debate público, melhor para a candidatura. A estratégia é resumida nos bastidores pela expressão "Lula é Moraes": associar politicamente o ministro ao presidente e manter o STF na comunicação diária e no horário eleitoral. A orientação, porém, é não atacar o Supremo como instituição e concentrar as críticas em Moraes e em decisões específicas de ministros. No ato de 7 de Setembro, em São Paulo, Flávio afirmou que a Corte "não é Alexandre" e que é preciso "proteger o STF de Alexandre de Moraes".
A campanha também quer reforçar o discurso de perseguição política no caso do filme "Dark Horse" e no vínculo do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, que transferiu dinheiro para financiar a produção. No mesmo ato, Flávio disse que tentariam uma "terceira facada" contra ele e seus aliados, em referência ao atentado contra Jair Bolsonaro em 2018 e aos ataques de 8 de janeiro. Nesta quarta-feira (9), em Juiz de Fora (MG), ele criticou decisão do ministro Flávio Dino, acusou o ministro de interferir no processo e disse que Lula quer "ganhar no tapetão". Aliados avaliam que o candidato vive um momento confortável na disputa, o que daria tempo para reduzir a rejeição, e recebem bem a entrada do marqueteiro Duda Lima na campanha.
Investigação do "Dark Horse" preocupa
A volta de Andrei Rodrigues ao comando da Polícia Federal acendeu um alerta. Interlocutores da campanha citados pelo G1 temem que o avanço das investigações do "Dark Horse" atinja pessoas próximas ao candidato, entre elas integrantes da produtora e o deputado Mario Frias (PL-RJ), produtor executivo do filme. Rodrigues retornou ao cargo após o presidente do STF, Edson Fachin, suspender as decisões do ministro André Mendonça que determinaram seu afastamento. Mesmo com a preocupação, a campanha avalia que os ganhos eleitorais da crise ainda superam os riscos. Interlocutores chegaram a apontar que um eventual afastamento de Moraes poderia favorecer Lula, ao tirar do centro da disputa o personagem que Flávio quer associar ao presidente.
Lula sobe o tom, sem citar Moraes
No Palácio do Planalto, a crise impõe um problema diferente. Como mostrou a colunista Andréia Sadi, do G1, parte da campanha defende que Lula adote posição mais enfática e marque distância de Moraes, mas aliados avaliam que a condição de presidente limita críticas diretas ao ministro. O governo entrou institucionalmente na disputa com um recurso da Advocacia-Geral da União contra o afastamento da cúpula da PF. Fontes palacianas ouvidas pela Reuters disseram que Lula concluiu, na terça-feira (8), que uma crise aguda no STF afetaria o governo e a campanha. Na quarta-feira, o presidente subiu o tom e defendeu a quebra completa do sigilo das investigações do caso Master, em publicação no X que não citou Moraes:
"Por isso, é urgente a quebra completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master, seja quem for, doa a quem doer. O Brasil precisa saber a verdade."
O presidente do PT e coordenador da campanha, Edinho Silva, classificou o momento como crise institucional, defendeu a apuração de todas as denúncias e disse confiar em Fachin para garantir o funcionamento da Corte e a transparência dos processos. Segundo a coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, citada pela BBC News Brasil, advogados do PT pediram aos ministros André Mendonça e Flávio Dino o fim do sigilo das investigações sobre o caso Master, com o argumento de que já vigoraria uma "publicidade seletiva". Parte da campanha de Lula descreve o quadro como um "problema instalado, de difícil solução". Os próximos passos dependem do Tribunal: Fachin convocou o plenário do STF para a terça-feira (15), quando os ministros devem analisar o relatório da PF que apontou uma suposta relação entre Moraes e Vorcaro, e ainda decidirá, em procedimento próprio da presidência do STF, se Andrei Rodrigues permanece no comando da Polícia Federal.