Debates hostis entre pré-candidatos radicais em podcasts se tornaram um formato recorrente da campanha eleitoral de 2026 e têm gerado grande engajamento nas redes sociais, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. O caso mais citado envolveu o historiador Jones Manoel (PSOL) e o vereador Eduardo Moura (Novo), pré-candidatos a deputado federal por Pernambuco, em um confronto de mais de três horas no dia 22 de julho.
O debate foi promovido pelo podcast Fala Ordinário, braço do perfil Recife Ordinário, que soma 2,2 milhões de seguidores no Instagram, segundo a Folha. O episódio mobilizou tanta expectativa que bares do Recife exibiram a transmissão ao vivo em telões, como se faz em decisões de futebol. Antes de começar, Moura chegou a avisar que não iria comparecer, gerando desespero no apresentador Gabriel Oliveira, mas surpreendeu ao aparecer de última hora, e o clima de desconfiança já deu o tom do que viria a seguir.
A troca de ofensas marcou o encontro. Jones chamou Moura de "canalha", "desequilibrado", "misógino", "imbecil", "surtado" e "vagabundo", enquanto Moura chamou o adversário de "lixo humano", "semianalfabeto", "frouxo" e "escória", chegando a dizer que ele merecia pena de morte e prisão. O momento de maior tensão veio quando Moura perguntou a Jones se ele defendia estupros cometidos pelo Hamas contra mulheres na guerra contra Israel, ao que o historiador respondeu acusando Israel de cometer estupros em massa e genocídio em Gaza, segundo o relato da Folha.
"Ficou um clima bem pesado, os gritos e xingamentos estavam tão altos que quem estava de fora escutava", disse o apresentador Gabriel Oliveira à reportagem. Ele afirmou ter saído do estúdio incomodado com o rumo da conversa, mas reconheceu depois o efeito do bate-boca sobre o público: "A briga, a baixaria, eu realmente não gosto, mas para uns pode ser legal." Segundo ele, mais de 20 mil pessoas acompanharam a transmissão simultaneamente pelo YouTube nos momentos de pico.
Desdobramentos na Justiça
O bate-boca teve consequências além das redes. Segundo reportagem do portal Jamildo, Jones Manoel obteve na Justiça uma tutela de urgência que determina a remoção de vídeos que o associam à apologia ao estupro, sob multa diária de R$ 1 mil para Moura e para o pré-candidato a deputado estadual Gabriel Asafe (Missão), que também replicou o conteúdo. Na decisão, o juiz do caso escreveu que "a própria documentação juntada indica que o autor, durante o debate, manifestou expressamente repúdio à violência sexual", o que fragilizaria a narrativa divulgada depois nas redes. Jones também pediu à Polícia Federal a abertura de inquérito contra Moura por suposta posse de material de abuso infantil, com base em uma fala do vereador durante o programa.
Eduardo Moura chamou a decisão judicial de censura em discurso na Câmara Municipal do Recife, dizendo ter "feito o debatedor assumir a verdade dele". Já a vereadora Liana Cirne (PT) criticou publicamente a postura do colega: "Não conte comigo para concordar com esse tipo de prática que viola a moral, a intimidade e os direitos da criança e do adolescente." O episódio ilustra como, segundo a Folha, debates radicalizados em podcasts viraram estratégia deliberada de pré-candidatos para ganhar visibilidade digital às vésperas da eleição de outubro.