Os ministros Gilmar Mendes e André Mendonça trocaram gritos nesta terça-feira (15) no plenário do Supremo Tribunal Federal, em Brasília. O atrito ocorreu na sessão extraordinária dedicada à crise do Banco Master que atinge a Corte e começou quando Gilmar saiu em defesa do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e acusou o colega de "desfaçatez" e "leviandade".
Gonet havia acabado de negar qualquer proximidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master. "Não existe e não tive relacionamento de proximidade com o senhor Vorcaro", afirmou o procurador, segundo o G1. Mendonça pediu a palavra para responder. Gilmar interrompeu o início da fala e gritou: "É impressionante a desfaçatez desse sujeito!"
"É impressionante, senhor presidente, que uma pessoa da estatura do senhor Paulo Gonet sofra esse tipo de ilação. Isso, sim, é leviandade. Um sujeito investido de um sentimento policialesco junto com os seus delegados. É impressionante a desfaçatez desse sujeito."
Mendonça respondeu aos gritos. "A desfaçatez de vossa excelência! Me respeite, me respeite. Isso aqui não é brincadeira!", exclamou. Gilmar rebateu: "Pode chorar, pode chorar." Mendonça negou: "Não estou chorando não. Aqui não tem choro não. Respeite!"
O ministro Flávio Dino interrompeu a sessão, pediu vista do julgamento e cobrou providências do presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, sobre o bate-boca. "Eu tenho que interromper esta situação porque nós temos uma questão de ordem. Nós não temos condições de deliberar. O clima é daí para pior, e a sociedade está assistindo a algo diferente do rito que a lei manda", declarou.
Crise que já enfrentava Moraes
O embate entre Gilmar e Mendonça se somou à disputa que opõe Mendonça ao ministro Alexandre de Moraes. A crise se intensificou após Mendonça, relator das investigações do caso Master, levantar o sigilo de relatórios da Polícia Federal. Um dos documentos apontou 52 mensagens entre Vorcaro e Moraes, encontros presenciais entre os dois e um contrato de R$ 130 milhões entre o banco e o escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci de Moraes. Moraes acusou o colega de liberação "seletiva" dos autos. Mendonça negou e disse ter mantido sob sigilo apenas o necessário para preservar investigações em andamento e dados de terceiros.
A sessão registrou ainda outro atrito. Dino mencionou mensagens sobre ministros do STF encontradas no celular de Vorcaro, e o ministro Luiz Fux reagiu: "Mensagem comigo não tem." Dino insistiu: "Tem, ministro Fux. Tem." Fux afirmou nunca ter visto Vorcaro na vida, e Dino respondeu que o colega "terá que esclarecer isso num momento próprio. Infelizmente".
O que vem a seguir
O julgamento terminou suspenso, com placar parcial de 4 a 3 pela manutenção das análises separadas dos casos de Moraes e de Mendonça. Fachin, Cármen Lúcia, Luiz Fux e André Mendonça ficaram contra a junção pedida por Gilmar; Gilmar, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes votaram pela análise conjunta, segundo o InfoMoney. Dino havia votado com esse grupo, mas converteu o voto em pedido de vista, o que suspendeu a sessão. O julgamento será retomado na próxima semana. O caso de Mendonça está pautado para 23 de setembro, e o prazo do pedido de vista pode chegar a 90 dias. Dias Toffoli declarou suspeição e Kassio Nunes Marques, impedimento, o que reduziu o plenário a sete votantes.