A revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro abalou a campanha presidencial do parlamentar. A constatação é de uma análise publicada pela Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (27), que detalha o que pesa contra o candidato nas eleições de 2026.
Segundo a Folha, Flávio vinha tentando atribuir o escândalo do Banco Master ao PT e à esquerda. O discurso perdeu força depois que o senador Ciro Nogueira (PP), ex-ministro de Jair Bolsonaro, foi alvo de uma operação da Polícia Federal nas investigações sobre o banco. A análise lista ainda contra o candidato o peso do sobrenome Bolsonaro, a falta de experiência em cargos do Executivo, o caso das rachadinhas, escândalo de corrupção nunca inteiramente esclarecido, as compras feitas com dinheiro vivo, o apoio ao governo Trump com discurso de entrega de recursos naturais e a rejeição do candidato.
O áudio e os R$ 134 milhões
O caso Vorcaro veio à tona em maio, quando o Intercept Brasil divulgou áudio e mensagens das negociações. Segundo o material, Flávio pediu ao banqueiro até US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para bancar Dark Horse, cinebiografia ficcional do pai. As transferências identificadas somam pelo menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões. Em uma gravação de setembro de 2025, o senador cobra mais dinheiro de Vorcaro, hoje preso.
O destino dos repasses foi o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos, representado pelo escritório do advogado Paulo Calixto, que também atua para Eduardo Bolsonaro, irmão do senador. Flávio confirmou que pediu os recursos. Disse que uma cláusula de confidencialidade explicava por que não havia mencionado antes a relação com Vorcaro.
A produtora Go Up Entertainment afirma, em laudo pericial anexado a um processo judicial, que o filme custou R$ 75 milhões, com R$ 54 milhões gastos nos Estados Unidos e R$ 20,9 milhões no Brasil. O documento diz que a origem dos recursos é privada e passou pelo Havengate, mas não identifica os financiadores. O nome de Vorcaro não aparece. A produtora nega ter recebido dinheiro do ex-banqueiro.
"Página virada"
Em campanha, Flávio trata o assunto como encerrado. "Já aconteceu", disse no dia 20, em São Paulo, ao afirmar que viu a prestação de contas e que "estava tudo certinho". Para o senador, Dark Horse é "página virada". Na segunda-feira (24), em evento na Fiesp, foi cobrado de novo. "Quem tem que prestar conta não sou eu, é o Lula que tem que prestar conta", respondeu. Aos jornalistas, perguntou: "Vocês vão parar no tempo?"
O prazo anunciado pelo próprio senador para divulgar uma prestação de contas detalhada da produtora terminou em 18 de junho, sem publicação dos documentos. Em julho, ele afirmou estar "100% disposto" a apresentar o contrato do filme. O contrato também não foi divulgado.
A produção segue sob investigação. Segundo o Brasil de Fato, as apurações incluem o possível uso irregular de verbas públicas e a ausência de licenças obrigatórias da Ancine, a agência nacional do cinema. A menos de seis semanas do primeiro turno, em outubro, a campanha do PL tenta conter o desgaste, enquanto a Folha aponta que o episódio complicou a estratégia de Flávio de se apresentar como moderado sem abrir mão da defesa da anistia e do legado do pai.