Documentos da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República tornados públicos nesta sexta-feira (11) pelo Supremo Tribunal Federal mostram que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro orientou, em mensagem, a gestão e a remessa de recursos nos Estados Unidos para o financiamento de "Dark Horse", cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. No texto, ele classificou como "problemático" o envio de dinheiro do Brasil para o filme e defendeu que os valores já estivessem em território americano.
Segundo o G1, um parecer da PGR assinado em julho pelo procurador-geral Paulo Gonet deu aval à abertura do inquérito no STF que apura o financiamento transnacional da produção. Investigadores obtiveram a captura de tela de uma conversa atribuída a Eduardo, que vive nos Estados Unidos, com orientações sobre como operacionalizar o envio dos valores ao exterior. O documento não informa quem era o destinatário da mensagem.
"O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para os EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos."
Na sequência da mensagem, Eduardo sugere "enviar o máximo possível ainda neste sistema atual" e coloca à disposição Altieris Santana, identificado pela investigação como diretor do Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas que administrava os valores e os repassava à produtora Go Up Entertainment. A Folha de S.Paulo informa que o material também indica que o ex-parlamentar atuava como gestor do dinheiro levantado para o longa.
Contrato de US$ 24 milhões e delação
A apuração aponta que o publicitário Thiago Miranda enviou, em dezembro de 2024, ao ex-banqueiro do Banco Master Daniel Vorcaro uma minuta de "Acordo de Financiamento de Produção 'Capitão do Povo'", nome anterior do filme, com previsão de US$ 24 milhões em 14 parcelas. As remessas internacionais somaram US$ 12,3 milhões em 2025 e foram feitas pela Entre Investimentos, do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, o "Mineiro". O acordo de delação premiada dele com a PGR foi homologado na quarta (9) pelo ministro André Mendonça, relator do caso no STF.
Na representação ao STF, a PF escreveu que a magnitude dos valores é "significativamente destoante dos referenciais disponíveis do mercado audiovisual nacional" e que a discrepância das projeções reforça a necessidade de apurar "a viabilidade econômica e a verdadeira finalidade da operação". A polícia lista como pontos a esclarecer a origem dos recursos, a função do fundo Havengate, os beneficiários finais e o papel de Eduardo e do senador Flávio Bolsonaro na estruturação, cobrança, execução e destinação dos aportes. Flávio, candidato à Presidência nas eleições de outubro, negou irregularidades em maio, em entrevista à GloboNews: "Todos os recursos que foram aportados neste fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme."
O inquérito do "Dark Horse" segue com Mendonça no STF, e Flávio pediu nesta sexta o fim da confidencialidade de todo o material sobre o filme. Em frente separada, o tribunal julga até 18 de setembro os embargos da defesa de Eduardo contra a condenação a 4 anos e 2 meses de prisão por coação, no processo que apura a tentativa de golpe de 2023. O relator, Alexandre de Moraes, votou para rejeitar o recurso e manter a pena.