O Ministério da Fazenda agora espera que a economia brasileira cresça 2% neste ano, e não os 2,3% previstos em julho. A diferença aparece no bolso: sobre um salário de R$ 3.000, um reajuste de 2% rende R$ 60 a mais por mês, contra os R$ 69 do cálculo antigo. São R$ 108 a menos no ano, e um crescimento menor costuma vir com menos vagas novas e negociações salariais mais apertadas.
A revisão está no Boletim Macrofiscal, divulgado nesta terça-feira (22). Segundo o governo, os serviços, o setor que vai do barbeiro ao aplicativo de entrega, perderam força, com projeção cortada de 2,4% para 1,8%. A indústria recuou de 2,1% para 1,7%, e só o agro subiu, de 1,8% para 2,8%.
O peso das dívidas das famílias
A dívida das famílias é o motivo central do corte. "Ainda que o endividamento das famílias siga estável em proporção da renda, o comprometimento com o serviço da dívida atingiu o maior nível da série histórica no segundo trimestre", explica o ministério. Ou seja: a fatia do salário comprometida com parcelas nunca foi tão grande, e sobra menos para o mercado, os restaurantes e o lazer.
Nem tudo piora: o documento cita o mercado de trabalho ainda firme e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, que deixa mais dinheiro no bolso no segundo semestre, como travas da desaceleração.
Entenda: o Boletim Macrofiscal sai a cada dois meses, pela Secretaria de Política Econômica, e reúne as projeções oficiais de crescimento e inflação que guiam o orçamento da União. O PIB é a soma de tudo o que o país produz em um ano. Crescer 2% equivale a produzir R$ 20 a mais para cada R$ 1.000 gerados no ano anterior.
Inflação e 2027
A inflação também mudou de rumo: a projeção para o IPCA, o índice oficial de preços, caiu de 5,1% para 4,9% neste ano. É pouco na conta: uma cesta de compras de R$ 500 terminaria o ano custando R$ 524,50, um real a menos que os R$ 525,50 da projeção antiga. Pesaram o IPCA de julho, abaixo do esperado, e os preços mais calmos da alimentação em casa.
Para 2027, o crescimento esperado caiu de 2,5% para 2,3%, e a inflação subiu de 3,6% para 3,8%, com o El Niño pressionando a safra. Segundo a Reuters, a Fazenda passou a trabalhar com uma Selic, a taxa básica de juros que define o preço das parcelas e do crédito, um pouco mais alta, com cortes mais graduais. O petróleo também pesa: a previsão do barril subiu de US$ 79,2 para US$ 87,7 neste ano, reflexo do conflito entre Estados Unidos e Irã.