O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, voltou a evitar detalhar suas conversas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme "Dark Horse", biografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, segundo reportagem da Folha de S.Paulo publicada nesta terça-feira (25). Questionado pelo jornal na segunda-feira (24) sobre por que não tornou público o contrato do filme com o ex-dono do Banco Master, como havia prometido em maio, o senador reagiu com irritação: "Vocês vão parar no tempo? Vocês querem insistir com relação de fundo privado, que não tem contrapartida pública de nada?", disse, segundo a publicação.
O caso veio à tona em maio, quando vieram a público conversas entre Flávio e Vorcaro nas quais o senador cobrava o pagamento dos R$ 134 milhões prometidos pelo banqueiro para a produção de "Dark Horse". No dia da prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, Flávio enviou uma mensagem de apoio: "Irmão, estou e estarei contigo sempre". Ao final, segundo a Folha, foram repassados R$ 61 milhões para o projeto. Logo após a divulgação dos diálogos, o candidato afirmou publicamente estar "100% disposto" a divulgar o contrato do filme, mas o documento não foi apresentado até o momento.
Duas frentes de investigação no STF
O episódio gerou duas apurações distintas no Supremo Tribunal Federal, segundo reportagem do jornal O Globo publicada na mesma data. A primeira, sob relatoria do ministro André Mendonça, é um desdobramento do inquérito sobre as fraudes do Banco Master, que causaram um custo à sociedade brasileira estimado em ao menos R$ 60 bilhões. O inquérito foi aberto em julho, a pedido da Polícia Federal e com manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República, para apurar suspeitas de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e corrupção nos repasses de Vorcaro à produtora do filme, feitos por meio de um fundo sediado nos Estados Unidos. Segundo o Globo, a investigação também busca esclarecer se as verbas teriam bancado gastos no exterior do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que mora nos Estados Unidos.
A segunda frente, conduzida pelo ministro Flávio Dino, apura o possível desvio de emendas parlamentares Pix, no valor total de R$ 2,6 milhões, destinadas em 2024 por deputados aliados de Jair Bolsonaro a uma ONG presidida pela sócia da produtora do filme. Segundo o Globo, os parlamentares Mário Frias (PL-SP), Bia Kicis (PL-DF) e Marcos Pollon (PL-MT) sustentam que as emendas foram destinadas a projetos culturais sem relação com o filme. Na segunda-feira (24), Dino autorizou que a Polícia Federal acesse provas coletadas pela Polícia Civil de São Paulo sobre a produtora Go Up Entertainment em uma investigação que apura suposta fraude em licitação e confusão patrimonial entre a ONG e a produtora.
Para a Folha, o problema central do caso não está no financiamento privado em si, mas no fato de o fundo usado para bancar o filme integrar uma rede que operou, segundo a reportagem, a maior fraude financeira do país, com ramificações que alcançam autoridades dos três Poderes, em nível federal e estadual, levantando indícios de tráfico de influência e corrupção. O jornal argumenta que cabe à imprensa fiscalizar o poder público e que é dever de agentes públicos esclarecer seu envolvimento em um caso criminal dessa magnitude.
Procurada pela Folha, a campanha de Flávio Bolsonaro não apresentou o contrato prometido nem detalhes adicionais sobre a relação com Vorcaro até a publicação da reportagem. O senador segue como um dos principais candidatos à Presidência em pesquisas de intenção de voto para 2026, disputando o posto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outros candidatos.