O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, destinou em novembro de 2023 uma emenda parlamentar de R$ 199.999,79 a um projeto esportivo no Rio. A negociação correu por WhatsApp entre um miliciano e uma assessora de seu gabinete no Senado, aponta a Polícia Federal. O pedido partiu de Robson Calixto, o Peixe, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 9 anos de prisão por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), morta com o motorista Anderson Gomes em 2018.
A intermediária foi Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar no gabinete do senador. A PF a descreve como "interlocutora direta" de Peixe. As mensagens foram apreendidas em 2024 no celular do miliciano, quando ele passou a ser investigado pela morte de Marielle, e integram apuração sigilosa autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, sobre possíveis desvios de emendas destinadas a entidades ligadas aos irmãos Brazão, também condenados pelo crime. Segundo a acusação, Peixe foi o elo entre os executores e os mandantes do assassinato, os irmãos Domingos, ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Rio, e Chiquinho Brazão, ex-deputado federal. O caso foi noticiado primeiro pelo jornal O Estado de S. Paulo e pela revista piauí, e confirmado pelo Poder360, pelo g1 e pela CNN.
As mensagens
A conversa começou em 24 de outubro de 2023. "Amiga vê com o nosso senador se consegue nos ajudar", escreveu Peixe. Maria de Fátima respondeu: "Manda a solicitação meu amigo. Um e-mail ou um ofício". O miliciano enviou então o "Ofício nº 002_2023" e perguntou se o senador poderia "nos ajudar com alguma coisa" em uma visita a Brasília prevista para novembro.
Dois dias depois, a assessora perguntou se Peixe seguia acompanhando o deputado Chiquinho Brazão. "Temos um evento. Vc vai tbm e já reforça o pedido com o senador", escreveu, antes de enviar um convite para Brazão a uma cerimônia de entrega de 396 coletes balísticos à Polícia Militar do Rio. Na avaliação da PF, o convite, "extensível a Robson", marcaria uma ocasião em que "o pedido de recursos poderia ser pessoalmente reforçado" com Flávio. Em 6 de novembro, Peixe insistiu: "Bom dia, amiga não esquece do IFOP não, vê se o Senador consegue nos agraciar, para não terminar o nosso projeto". A resposta foi "Pode deixar". Dias depois, a emenda foi destinada. No celular do miliciano, o contato da assessora estava salvo como "Fafá Flávio Bolsonaro". Em janeiro de 2024, ela pediu um "favor": quatro ingressos para o desfile das campeãs no camarote Arpoador.
Indícios de desvio e a defesa
O repasse foi feito ao Ministério do Esporte, que firmou termo de fomento com o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP) para o projeto "Jogadores do Futuro", voltado a crianças em Taquara, bairro da zona oeste do Rio. Um relatório técnico do Tribunal de Contas da União (TCU), de 2025, apontou indícios de desvio. Segundo o tribunal, a empresa contratada para coordenar as atividades esportivas "consiste em 'serviços advocatícios', não guardando qualquer relação com a coordenação de projeto de atividades esportivas", e o responsável por ela "é o próprio presidente do IFOP, entidade contratante". A PF investiga ainda o envio de cerca de R$ 400 mil ao município de Barra do Piraí (RJ), segundo a CNN. O valor total repassado via emenda a uma organização alvo da apuração seria de R$ 599.128.
Em nota, a defesa de Flávio Bolsonaro afirmou que a emenda "foi destinada dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte". Segundo a nota, "a entidade executora apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados" e "a responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar". O advogado Tracy Reinaldet, que defende o candidato, disse ao Poder360 que o repasse não foi feito pela via impositiva, as chamadas emendas Pix, e passou por fiscalização do Ministério do Esporte e do TCU. A apuração segue em sigilo no STF. Faltam 11 dias para o 1º turno da eleição presidencial, em 4 de outubro, e Flávio aparece empatado com o presidente Lula (PT) nas pesquisas de segundo turno divulgadas esta semana, como as da AtlasIntel e da Quaest.