O Poder Judiciário gastou R$ 164,6 bilhões em 2025, o maior valor da série histórica do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), iniciada em 2009. Para quem paga impostos, a conta chega inteira: a arrecadação própria dos tribunais somou R$ 68,2 bilhões, o que cobre 41% do gasto e representa queda de 8,9% ante 2024. Ou seja, de cada real gasto, cerca de 59 centavos saem do orçamento público, segundo dados do relatório Justiça em Números citados pela Folha de S.Paulo.
O motor do recorde é a folha de pagamento. As despesas com pessoal somaram R$ 148,5 bilhões, ou 90,2% do gasto total, e subiram 9% sobre 2024, segundo a Folha. Na prática, de cada R$ 10 que os tribunais desembolsam, cerca de R$ 9 vão para salários e benefícios.
Entenda: o CNJ é o órgão de controle do próprio Judiciário, e o Justiça em Números é seu levantamento anual sobre orçamento, pessoal e produtividade de todos os tribunais do país. Os dados de 2025 foram apresentados ao conselho em junho. Como a série comparável só começa em 2009, todo recorde citado aqui se refere a esse período.
Um dos itens mais criticados são as verbas indenizatórias, benefícios pagos além do salário, como diárias, passagens e auxílio-moradia. Elas consumiram R$ 9,8 bilhões no ano, quase o dobro do que os tribunais investiram em tecnologia, segundo a Folha. Em muitos casos, esses adicionais fazem os contracheques ultrapassarem o teto constitucional, o limite máximo de remuneração no serviço público.
Em março, o STF (Supremo Tribunal Federal) limitou esses pagamentos extras acima do teto. Ainda assim, segundo levantamento do Poder360, a decisão manteve adicionais de até R$ 421,9 mil por ano para cada magistrado.
O peso nos estados
Nos orçamentos estaduais, o recorde também veio: os tribunais consumiram R$ 95,9 bilhões em 2025, ou 6,53% das despesas das unidades da Federação, contra 4,66% em 2013, aponta o Poder360 com dados do Tesouro Nacional. O avanço equivale a cerca de R$ 28 bilhões, o suficiente para construir mais de 1.400 UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) ou até 3.400 escolas. Corrigido pela inflação, o gasto subiu 61,6% entre 2021 e 2025.
Demanda recorde e imagem desgastada
O relatório do CNJ mostra a outra ponta da balança. Os tribunais receberam 40,9 milhões de processos novos em 2025, recorde da série, e encerraram mais do que receberam: para cada 100 casos que entraram, cerca de 110 foram baixados. A produtividade média, de 2.366 processos baixados por magistrado, supera a média dos países europeus acompanhados pela Cepej, que foi de 252.
O gasto total equivaleu a 1,3% do PIB (Produto Interno Bruto) e a 2,7% de tudo o que União, estados, Distrito Federal e municípios gastaram no ano, segundo o relatório. As cifras saem em meio ao debate sobre supersalários e ao envolvimento de magistrados de cortes superiores no caso Banco Master, contexto descrito pela Folha. Pesquisa Datafolha citada pelo jornal mostra que 38% dos brasileiros dizem não confiar no Judiciário, 43% confiam pouco e 17%, muito.