O governo Lula e o setor produtivo esperam retomar as exportações de frango e de mel para a União Europeia em até dois meses. A estimativa, relatada pela coluna Painel, da Folha de S.Paulo, segue a auditoria que técnicos do bloco fizeram no Brasil nas duas cadeias, encerrada na sexta-feira (4). No cenário mais otimista, o Planalto torce para que as vendas voltem antes do 2º turno das eleições.
O bloqueio europeu a produtos de origem animal brasileiros está em vigor desde 3 de setembro e vale para os 27 países do bloco: alcança carnes bovina, de frango e suína, além de mel, pescados e ovos. A justificativa de Bruxelas é o controle insuficiente sobre o uso de antimicrobianos na pecuária, substâncias que as regras do bloco proíbem como promotores de crescimento. Nenhum lote brasileiro teve contaminação ou irregularidade sanitária identificada, segundo a Agência Brasil. Até US$ 2 bilhões por ano estão em jogo; só o frango somou US$ 763 milhões vendidos ao mercado europeu em 2025, segundo dados da ABPA, associação do setor de proteína animal.
O frango e o mel podem voltar antes porque dependem de ciclos curtos. O frango leva cerca de 45 dias do nascimento ao abate, segundo o g1; um bovino criado sob as novas exigências leva de 24 a 36 meses, o que empurra a retomada da carne bovina para pelo menos dois anos mesmo que o bloqueio caia. O relatório da auditoria agora será analisado pelas autoridades europeias, processo estimado em cerca de dois meses. O comitê sanitário do bloco só deve reavaliar os pontos técnicos dessas cadeias em novembro, segundo o Brasil de Fato.
O que o Brasil apresentou ao bloco
O governo negocia desde que a suspensão foi anunciada, em maio. Em abril, o Ministério da Agricultura proibiu por portaria antimicrobianos como avoparcina, virginiamicina e bacitracina, segundo o g1. Em maio, propôs um período de transição, recusado pela UE. Em junho, o setor lançou, com a CNA e as certificadoras, um protocolo que rastreia o animal do nascimento ao abate; segundo a Abiec, todas as empresas associadas habilitadas a vender ao bloco aderiram. O presidente da ABPA, Ricardo Santin, afirma que a produção para a Europa sempre foi segregada, sem promotores de crescimento nem antibióticos de uso humano, e que a novidade são as fiscalizações em fábricas de ração, granjas e frigoríficos previstas no plano nacional de resíduos. Uma porta-voz da Comissão Europeia disse à AFP que as vendas "poderão ser retomadas" assim que a conformidade for comprovada.
O mel é o item de menor valor em risco, mas vinha acelerando: as vendas ao bloco quase dobraram no primeiro semestre deste ano, para US$ 6,35 milhões, ante US$ 3,18 milhões um ano antes, segundo o g1. A Abemel, associação dos exportadores, calcula perda de US$ 4 milhões entre setembro e dezembro. "Acaba sendo um balde de água fria nos esforços dos exportadores, que já estavam colhendo frutos de um trabalho de ampliação de mercado", disse o presidente da entidade, Renato Azevedo. Alemanha, Países Baixos, Bélgica e Itália são os principais compradores. Entidades do agro veem protecionismo na medida, anunciada dias após a entrada em vigor do acordo Mercosul-UE, e a CNA chegou a pedir ao Itamaraty que estude retaliação pelo próprio tratado.
Para os produtores de frango e de mel, uma retomada em até dois meses encurtaria o bloqueio a pouco mais de um trimestre; para os pecuaristas, o caminho segue contado em anos. Para o consumidor europeu, o retorno repõe um fornecedor cujos lotes não tiveram contaminação identificada pela própria UE. Enquanto o bloqueio durar, as cargas que iriam à Europa seguem para o mercado interno ou outros compradores, substituição que o próprio setor descreve como difícil porque cada destino exige cortes específicos.